



24 de agosto de 2026 às 17:52
Justiça nega pedido de soltura de três presos pela morte de idoso em Bandeirantes Um idoso foi morto com um tiro em Bandeirantes, no Norte do Paraná. Ele, que estava deitado na cama e usando fraldas, foi identificado como José Teixeira da Silva, de 77 anos. A Polícia Civil (PC-PR) informou que, inicialmente, o caso foi tratado como latrocínio — roubo seguido de morte. Entretanto, a investigação apurou tratar-se de um homicídio planejado pela esposa da vítima, com a ajuda do amante dela e com o conhecimento da filha. ✅ Siga o g1 Londrina e região no WhatsApp Valquíria Sandoval (esposa), Anderson Justino Estevão (amante de Valquíria) e Amanda Sandoval Teixeira da Silva (filha) foram presos em flagrante. A defesa dos três disse não ser possível "tratar como definitivas as conclusões apresentadas até o momento". Leia a nota na íntegra ao final. Da esquerda para a direita, Valquíria, Anderson e Amanda. Reprodução Quando José foi encontrado morto em cima da cama, no início da madrugada de sábado (21), Valquíria disse à Polícia Militar (PM-PR) que o crime havia sido cometido por dois homens desconhecidos, durante uma invasão e um roubo à casa. Porém, a polícia encontrou contradições nesta versão apresentada pela esposa. Os policiais apuraram as informações, analisaram o celular de Valquíria e chegaram à conclusão de que ela havia pedido para que Anderson — com quem tinha um relacionamento extraconjugal — matasse José. Conforme o delegado Michel Araújo, ela admitiu o crime somente no segundo depoimento prestado, quando também disse que a motivação foi José ter se negado a pagar um tratamento de saúde para a filha, mesmo possuindo o dinheiro necessário. "Confrontada com o conteúdo do aparelho celular, com as contradições que ela tinha apresentado, ela confessou. Confessou a autoria dos fatos, juntamente com o Anderson Justino Estevão, que seria o amante dela", o delegado explicou à RPC, afiliada da TV Globo no Paraná. José Teixeira da Silva, de 77 anos. Reprodução Neste contexto, a polícia também confirmou que Amanda foi avisada pela mãe de que o pai seria assassinado. Mesmo assim, a filha não impediu Valquíria de planejar e cometer o crime. Nesta segunda-feira (23), a Justiça negou o pedido de liberdade dos três suspeitos, que estão presos preventivamente por homicídio qualificado. A polícia apreendeu três celulares, um revólver e dinheiro. Em sete pontos, confira mais detalhes da investigação do caso: Como foi o primeiro registro do crime Contradições identificadas pela polícia O que a esposa disse no depoimento O que a filha disse no depoimento O que o amante disse no depoimento Dinâmica do crime, segundo a polícia Defesa dos suspeitos Como foi o primeiro registro do crime Perícia realizada na casa do casal. Reprodução No início da madrugada de sábado, a Polícia Militar (PM-PR) foi acionada para atender a uma situação de disparo de arma de fogo. No local, constatou-se a morte de José e também o roubo do carro dele. Valquíria relatou aos policiais militares que havia levantado da cama para beber água e, então, ouviu o disparo. Quando escutou o barulho, disse ter ido ao quintal para prender o cachorro e, ao voltar para casa, viu dois homens saindo com o carro. A mulher também afirmou ter corrido para a rua para pedir ajuda, e os vizinhos que saíram para socorrê-la viram José baleado em cima da cama. Por fim, a esposa disse que, além de cometerem o homicídio e roubarem o carro, os homens também teriam levado R$ 15 mil. As portas e janelas da casa estavam abertas, mas Valquíria afirmou aos policiais que era um costume não trancá-las porque o bairro é tranquilo. Contradições identificadas pela polícia No inquérito, a polícia identificou diversas inconsistências nas declarações de Valquíria: depois de dizer ter visto os suspeitos fugindo, ela mudou o relato e falou não ter flagrado a ação; priorizou prender um cão no momento do crime; mudou a quantia de dinheiro roubada, de R$ 10 mil para R$ 15 mil. Além disso, José estava acamado naquele dia, o que não era compatível com um roubo "barulhento" como o que foi narrado. "Embora a capitulação inicial seja latrocínio, a dinâmica fática e o comportamento da testemunha sugerem a simulação de um crime patrimonial para encobrir uma execução", consta no documento. O que a esposa disse no depoimento Valquíria disse ao delegado Michel que foi casada com José por 28 anos, mas que tinha um relacionamento extraconjugal com Anderson há três anos. Ela relatou ter sofrido privações ao longo da vida com o marido, como a proibição de visitar os pais. A última, segundo a mulher, foi a negativa dele para pagar um tratamento de Amanda. Por isso, planejou o crime durante um mês. "No desespero, eu fiz o Anderson fazer isso [cometer o homicídio]. Isso não é justo", disse. A mulher explicou que, no sábado, entregou a arma de José a Anderson, prendeu o cachorro e saiu da casa até que o crime fosse cometido. Ela também admitiu ter enviado uma mensagem para a filha, logo em seguida, dizendo: "Aconteceu". O que a filha disse no depoimento Em depoimento, Amanda confirmou saber que a mãe, Valquíria, tinha um relacionamento com Anderson. Ela também afirmou que o pai, José, era um homem controlador, violento e negava cuidados básicos às pessoas da família, como alimentação e tratamento de saúde. "Ela [Valquíria] planejou com ele [Anderson]. Eu sabia. Não ajudei, mas eu sabia de tudo, ela falou para mim. E por dó das consequências que ela vivia, eu concordei. Mas eu não estava presente. Ela mesma falou para eu ficar em Londrina, para eu não voltar, para eu não ver, para eu não participar", relatou. Conforme a descrição de Amanda, Valquíria deixou a porta de casa aberta, Anderson entrou, deu o tiro no idoso usando uma arma que a vítima tinha, pegou a carteira de José e levou o carro para "não ficar estranho". Não havia outras pessoas na casa. A filha afirma ter pedido, anteriormente, para que a mãe não realizasse o crime, mas não a denunciou e não a impediu. Além disso, explicou que Valquíria foi movida pela urgência de encontrar dinheiro para o pagamento do tratamento para Amanda, que foi negado por José. O que o amante disse no depoimento Anderson disse que está em um relacionamento extraconjugal com Valquíria há seis meses e que os dois conversaram sobre ele parar de trabalhar quando ela ficasse viúva. Ele afirmou não conhecer Amanda, apenas saber que ela precisava de um tratamento de saúde. Na versão apresentada pelo homem no depoimento, naquele sábado, Valquíria o encontrou na frente da casa e pediu para que ele apenas escondesse a arma e levasse o carro embora. Ele afirmou não ter entrado no imóvel e que não cometeu o homicídio. Além disso, Anderson alega não ter conhecimento sobre o plano do assassinato. Dinâmica do crime, segundo a polícia Para a polícia, Valquíria iniciou o plano para assassinar José há um mês. Ela foi movida pela indignação de saber que o marido possuía dinheiro, mas não queria pagar o tratamento de saúde de Amanda, que é filha dos dois. Para isso, pediu que Anderson realizasse o crime. No sábado, ela entregou o revólver ao amante e esperou o disparo. "E a filha tinha conhecimento dos planos. Esses planos para matar a vítima já estavam perdurando há cerca de um mês", o delegado explicou. Depois que Anderson fugiu com o carro, ele o abandonou em uma área de vegetação da cidade. "Tá claro que o foco era tirar ele [José] de cena para ter acesso a esse dinheiro, para a menina fazer o tratamento e a mãe ser feliz para sempre com a amante", disse Araújo. Defesa dos suspeitos Os advogados Sivaldo Pires Bento e Bruno Cesar Carlota dos Santos disseram, em nota enviada à RPC, que acompanham o caso. Leia na íntegra: "A defesa esclarece que as investigações acerca dos fatos ocorridos em Bandeirantes permanecem em curso, não sendo possível tratar como definitivas as conclusões apresentadas até o momento. As declarações prestadas na fase policial, apresentadas como 'confissões' são expressamente questionadas pela defesa quanto à sua voluntariedade, diante das circunstâncias em que foram obtidas, incluindo a proibição de contactarem seus advogados, a forte pressão psicológica e privação de alimentação e água por aproximadamente 7 horas de interrogatório. A própria manifestação do Ministério Público reconhece que tais circunstâncias ainda poderão ser melhor apuradas no decorrer da investigação. Até o momento não há decisão judicial sobre o direito dos investigados responderem o processo em liberdade. Seguiremos colaborando com a Justiça para o completo esclarecimento dos fatos, sem, contudo, abrir mão dos direitos e garantias fundamentais assegurados pela Constituição, especialmente o devido processo legal, o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência." VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias em g1 Norte e Noroeste.

24 de agosto de 2026 às 17:39
Falhas de hardware, erros humanos, desastres naturais e ataques cibernéticos têm ao menos uma característica em comum: podem interromper, de forma repentina, a operação de uma empresa. A forma como cada organização se prepara para esses cenários — e não apenas para evitá-los — é o que define o conceito de recuperação de desastres, ou disaster recovery, na terminologia usada pelo setor de tecnologia. Segundo dados citados por consultorias de infraestrutura, o custo médio do tempo de inatividade de sistemas corporativos pode representar milhares de dólares por hora, variando conforme o porte da empresa e a criticidade dos sistemas afetados. Para negócios cuja operação depende diretamente de sistemas digitais, cada hora de indisponibilidade tende a se traduzir em impacto direto sobre receita, produtividade e relacionamento com clientes. A diferença entre backup e plano de recuperação Um equívoco comum, segundo especialistas em continuidade de negócio, é confundir a existência de backups com a existência de um plano de recuperação de desastres. Enquanto o backup se refere à cópia dos dados, o plano de recuperação envolve todo o processo necessário para restabelecer a operação: quais sistemas devem ser priorizados, quem é responsável por cada etapa, qual o tempo máximo tolerável de indisponibilidade para cada processo crítico e como a comunicação com clientes e equipes deve ocorrer durante a crise. Pesquisas do setor indicam que, mesmo entre empresas que afirmam ter um plano de recuperação de desastres formalizado, parcela relevante nunca testou esse plano na prática — o que reduz significativamente sua eficácia real no momento em que é efetivamente necessário. RPO e RTO: os indicadores que orientam o planejamento Especialistas em continuidade de negócio costumam trabalhar com dois indicadores centrais no desenho de um plano de recuperação. O primeiro, conhecido como RPO (Recovery Point Objective), define até que ponto no tempo os dados podem ser recuperados — ou seja, quanto de informação a empresa está disposta a perder em caso de incidente. O segundo, RTO (Recovery Time Objective), define o tempo máximo aceitável para que os sistemas voltem a funcionar após uma interrupção. Definir esses parâmetros exige que a empresa avalie, de forma realista, quais sistemas são de fato críticos para a operação e quais podem tolerar um tempo maior de indisponibilidade sem gerar impacto significativo — uma análise que, segundo especialistas, costuma ser negligenciada por empresas que tratam todos os sistemas com o mesmo nível de prioridade. Por que os testes periódicos fazem diferença Um plano de recuperação de desastres que nunca foi testado carrega um risco relevante: a possibilidade de que, no momento da crise, procedimentos previstos no papel não funcionem como esperado na prática, seja por mudanças na infraestrutura que não foram refletidas no plano, seja por falhas de comunicação entre as equipes envolvidas. Organizações mais maduras em gestão de continuidade costumam realizar simulações periódicas, envolvendo cenários realistas de falha, como forma de identificar lacunas no plano antes que um incidente real exponha essas fragilidades. Ambientes replicados como estratégia de resiliência Entre as práticas mais adotadas por empresas com maior maturidade em continuidade de negócio está a manutenção de ambientes replicados — cópias funcionais da infraestrutura principal, hospedadas em local separado, capazes de assumir a operação em caso de falha grave no ambiente primário. Essa abordagem reduz o tempo de indisponibilidade em comparação com modelos que dependem exclusivamente da reconstrução da infraestrutura a partir de backups após o incidente. O papel de parceiros em continuidade de negócio Estruturar um plano de recuperação de desastres robusto exige conhecimento técnico específico, além de tempo dedicado a testes periódicos — recursos nem sempre disponíveis nas equipes internas de empresas de pequeno e médio porte. Nesse contexto, a Gate7 IT Solutions atua apoiando organizações na estruturação de planos de continuidade e ambientes de recuperação, contribuindo para reduzir o tempo entre a ocorrência de um incidente crítico e o restabelecimento da operação. Perspectivas para os próximos anos A tendência observada por especialistas do setor é que a recuperação de desastres deixe de ser tratada como um documento arquivado e passe a integrar rotinas periódicas de teste, no mesmo padrão aplicado a outras áreas críticas da gestão empresarial, como auditoria financeira. Para gestores de tecnologia, o principal aprendizado é que um plano de recuperação só cumpre sua função quando é testado com regularidade — antes que a empresa precise dele em uma situação real. Serviço Gate7 IT Solutions Site: www.gate7.com.br Telefone / WhatsApp: (41) 4042-6421 Instagram: @gate7it Atendimento: Curitiba (PR) e São Paulo (SP)

24 de agosto de 2026 às 17:19
EUA ameaçam agir contra países com relação com Irã Em uma nova ofensiva contra o Irã, desta vez focando a economia, os Estados Unidos anunciaram nesta segunda-feira (24) uma leva de sanções a Teerã, ameaçaram países que realizem transações econômicas com o regime iraniano e lançaram uma campanha para que líderes mundiais rompam com o país persa. O Departamento do Tesouro norte-americano afirmou ter sancionado cerca de 60 pessoas, entidades e embarcações ligadas governo iraniano e que atuam em áreas de energia nuclear, de produção de mísseis, cibernéticas e de petróleo. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp ➡️ As sanções fazem parte de uma "guerra econômica" que Trump anunciou na semana passada para tentar sufocar a economia iraniana. Trump já havia dito que esta segunda-feira seria o "Dia D da guerra econômica". Como parte da estratégia, o governo norte-americano também ameaçou países que fizerem qualquer transação econômica com o Irã. O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, que anunciou as sanções, afirmou que Trump está pedindo para que líderes mundiais cessem relações com o Irã. "O presidente Donald Trump está ligando para líderes mundiais com pedidos específicos para que cessem suas interações com o Irã", disse Bessent. O secretário afirmou ainda que Washington definiu um cronograma para que cada país vá interrompendo suas "atividades" com o regime iraniano. "Se eles não interromperem essas atividades, nos faremos isso de forma unilateral através de autoridades do Tesouro", ameaçou Bessent. Ele disse ainda que uma "grande instituição financeira" também será sancionada nesta semana por vínculos financeiros com o Irã, mas não deu mais detalhes da ameaça. O secretário de Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, durante anúncio de novo pacote de snações ao Irã, em 24 de agosto de 2026. Evelyn Hockstein/ Reuters Mais cedo, Trump havia afirmado, em uma publicação em sua rede social Truth Social, que o Irã está "colapsando completamente". Países vizinhos O presidente Donald Trump durante o hino nacional na largada da corrida Freedom 250 Grand Prix nas ruas de Washington, DC, domingo, 23 de agosto de 2026. Doug Mills/Pool via REUTERS O secretário Scott Bessent não especificou quais países seriam alvo das ações dos EUA. Mas parte da "guerra econômica" de Trump será tentar costurar acordos com nações do Oriente Médio. Washington também ameaçou os vizinhos do Irã com sanções caso sigam negociando com o Irã, para isolar Teerã. No sábado (22), o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Ghalibaf, também o principal negociador do país com os EUA, disse que o governo iraniano recebeu mensagens de vizinhos citando a criação de "novos acordos de segurança e cooperação econômica". Nesta segunda, o regime dos aiatolás retrucou. O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que os países vizinhos que optarem por aderir à campanha de pressão econômica dos Estados Unidos contra o país poderão enfrentar "consequências". Agora no g1

24 de agosto de 2026 às 17:13
O orvalho ainda borda a plantação nas terras de Diamante do Oeste, no Paraná, quando Neomir gira a chave do trator. O motor desperta devagar, costurando o silêncio da madrugada com o ronco do trabalho que recomeça. Lá fora, as amoreiras são podadas para oferecer folhas novas aos bichos-da-seda. Maria, esposa de Neomir, veste a capa de chuva para se proteger da umidade da folhagem e se prepara para alimentar as lagartas. O sol ainda nem despontou, mas, no barracão, já é possível ouvir o “barulho de chuva” que as milhares de pequenas criaturas, na quinta idade — o auge de seu crescimento — fazem ao devorar a amoreira em um compasso ritmado, transformando folhas em matéria-prima para o que, mais tarde, brilhará nas passarelas do mundo. O animal se alimenta apenas das folhas de amoreira. Gabrielli Schunski. O fio que começou em um chá Contam as lendas que a seda nasceu há mais de cinco mil anos, na China. A imperatriz Leizu tomava chá sob uma amoreira quando um casulo caiu em sua xícara. Ao tentar retirá-lo, notou que dele se desenrolava um fio resistente e frágil. Daquela descoberta, fiou-se um segredo guardado por séculos: a arte de criar o bicho e desenvolver tecido. Só no século 6, monges trouxeram ovos e sementes de amoreira até o Império Bizantino, costurando o início de uma rede que se espalhou por toda a Ásia e Europa. Hoje, o Paraná é a principal agulha desse bordado no Ocidente: responde por mais de 80% da produção brasileira, e o Brasil figura entre os maiores produtores de seda do hemisfério, graças a famílias como a de Neomir. A empresa Bratac, sediada em Londrina, é a única fabricante de fios de seda em escala industrial no Ocidente, e é ela quem entrega as caixas de lagartas que chegam às pequenas propriedades rurais. As idades do bicho O trabalho de produção da seda começa no campo, com o cuidado diário com os bichos-da-seda. Gabrielli Schunski. Na casa de Neomir, o tempo é medido em idades, não em dias. Durante as quatro primeiras idades, as lagartas se alimentam com maior espaçamento. Cada folha é um pedaço do futuro tecido. Quando chegam à quinta, elas comem de hora em hora, e pequenas caixas com divisória são colocadas sobre os bichos, onde tecem seus casulos, fiando o abrigo que as transformará em borboleta. Entre a primeira e a última idade, passa-se cerca de um mês. Lá dentro, as lagartas movem a cabeça em forma de oito, lançando um fio líquido que se solidifica ao tocar o ar. Em dois ou três dias, o trabalho está completo: um casulo de seda pura. Cada um deles pode conter até 1.500 metros de fio ininterrupto. Os desafios de fiar o sustento Fiar é sinônimo de paciência. O clima é o principal desafio. Chuvas em excesso ou longas estiagens afetam as amoreiras e, com elas, toda a produção. “O tempo é o que mais atrapalha”, confessa Maria. “Tem ano que as folhas ficam ruins, o bicho não come, e o preço cai”. Os produtores atuam com a sericultura durante seis meses do ano, tendo em vista que, nos períodos de frio, as lagartas não se desenvolvem. “Não dá para viver só desse tempo. Vamos fazendo uns bicos. Eu trabalho com construção, ajudo o pessoal no que precisar, mas ainda tem que mexer com a amora”, explica Neomir. A amoreira cresce melhor em climas subtropicais e temperados com chuvas regulares. Gabrielli Schunski. Borda histórias e vestidos Daqui, do interior do Paraná, os casulos bordam um longo caminho até as fiações e tecelagens. São mergulhados em água quente para amolecer a goma que une as fibras e, então, o fio é desenrolado. Vários casulos são fiados juntos, formando um único filamento contínuo. Esse fio, quase invisível, atravessa estilos e se transforma em tecidos de nomes quase poéticos: crepe de chine, twill, organza, chiffon, duchesse, habotai. Cada tipo de seda tem um caimento diferente: umas são leves como brisa, outras firmes como o toque de uma joia. Por isso, a seda é considerada a fibra natural mais nobre do mundo: respira, refrigera no calor, aquece no frio e reflete a luz de um modo que nenhuma fibra sintética conseguiu reproduzir. Nas passarelas de Paris e Milão, ela aparece como o ponto final de uma longa costura que começa em pequenas fazendas brasileiras. Grifes como Hermès, Dior e Valentino ainda a tratam como uma matéria viva, que deve ser cortada com respeito, como se cada vestido guardasse em si o “som de chuva” do barracão e o vento nas amoreiras. Esse musical de tempestade também pode embalar as noites por meio de lençóis de seda. De acordo com a designer de moda Tainara Oliveira, a seda se torna ainda mais valiosa quando é produzida por pequenas famílias rurais. “Ela ganha valor social e identitário, além do valor material. Isso fortalece a economia local, preserva saberes tradicionais e cria cadeias produtivas sustentáveis, em que o tecido carrega a história de quem o produziu”. Entre o campo e o luxo Poucos imaginam que a seda que cintila nas vitrines nasceu em galpões de madeira. A trajetória da seda começa nas mãos calejadas de quem alimenta as lagartas e termina no brilho das passarelas. Neste caminho, ela é fiada, torcida, tingida, cortada e costurada, um processo de transformação que espelha o próprio ciclo do bicho. O respeito ao tecido não acontece apenas na produção, mas também na fase de modelagem de um figurino, por exemplo: “A seda exige precisão técnica e sensibilidade. O desafio é conseguir traduzir sua leveza sem perder a estrutura. Costurar seda é quase um exercício de respeito à matéria. É preciso permitir que o tecido se mova, respire e mantenha sua naturalidade, sem tentar controlá-lo em excesso”, detalha Tainara. Cada metro de tecido carrega, invisível, o trabalho do campo. Um fio que une a poeira vermelha da roça e o tapete vermelho da moda. Texto produzido por Gabrielli Schunski de Souza, acadêmica do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.