#52 – O balde

24/10/2018 às 17:56. Comente esta notícia!

Se existe uma dor que eu desejo apenas para o meu pior inimigo, certamente é aquela provocada pela pancreatite aguda.

Foi o que aconteceu com o pobre coitado infeliz do Lucas, que precisou ser carregado para o hospital. A dor abdominal era tão exagerada que ele mal conseguia respirar.

Embora tivesse apenas 36 anos, seus exames eram de uma pessoa com 63. Pré-diabetes, colesterol alto, triglicerídeo elevado, ácido úrico lá na estratosfera… segundo ele próprio, tudo ‘herança de família’.

Pois é.

Chega a impressionar a quantidade de pacientes que carregam sobre os ombros a certeza de que terão as mesmas doenças de seus antepassados. O que muitos confundem é herança genética com herança de hábitos nocivos. Talvez o seu pai tenha diabetes porque chutou o mesmo balde que o seu avô, alimentando por décadas um namoro sério com doces e guloseimas. Então, se você chuta – e quebra – o mesmo balde, é quase como comprar uma passagem só de ida para o planeta dos diabéticos. Simples e natural assim.

Naquele internamento, Lucas teve a convicção de que morreria. Mas não morreu, recebendo alta com uma receita médica quilométrica, composta por uns nove medicamentos de uso diário.

Passados dois anos, alguém tocou gentilmente meu ombro na fila da lotérica.

Era o Lucas num largo sorriso. Para minha surpresa, estava bem mais magro do que quando o conheci. Em poucas palavras foi me contando que, depois do susto, criou vergonha na cara e parou de enfiar o pé no balde. Comprou uma bicicleta usada e passou a comer sem exageros. De quebra, não precisou mais tomar remédios, dando uma bela rasteira em sua ´trágica´ herança familiar.

Muito feliz por você, Lucas.

Os baldes agradecem.

Pense nisso, se cuida e até a próxima.

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#52 – O balde
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