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Após morte de criança por escorpião, site indica onde encontrar soro no Brasil

24 de abril de 2026

Escorpião amarelo capturado em Porto Alegre — Foto: Cristine Rochol/PMPA / Divulgação

Plataforma criada após caso recente tenta agilizar atendimento em emergências e expõe falhas na comunicação entre órgãos de saúde

Por Larissa Zanato

A morte de um menino de 3 anos após uma picada de escorpião, no interior de São Paulo, motivou a criação de um site que reúne informações sobre onde encontrar soro antiveneno em todo o país. A ferramenta foi desenvolvida em poucos dias pelo empreendedor Eduardo Cruz, de 43 anos, após o caso ganhar repercussão.

A vítima, Bernardo de Lima Mendes, foi picada no dia 31 de março, em Conchal (SP), e morreu na manhã do dia seguinte, 1º de abril, após ser transferido para Araras. Segundo relato do pai, o soro antiescorpiônico foi aplicado mais de 4 horas depois do acidente. A Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar o caso.

Menino de 3 anos morreu após ser picado por escorpião em Conchal (SP) — Foto: Antonio Bordignon/iNaturalist e Redes Sociais

Diante da situação, Eduardo decidiu agir. “Sou pai de dois meninos em idade similar à do Bernardo, mexo com inteligência artificial, não sei programar, mas decidi fazer o projeto. Os dados usados foram do Ministério da Saúde, e demorou uns 2 a 3 dias. Foi ao ar semana passada e explodiu”, conta.

Assim surgiu o SoroJá, uma plataforma que reúne locais que disponibilizam soros contra venenos de animais peçonhentos. A base de dados foi construída a partir de informações públicas do Ministério da Saúde, organizadas por estado.

A proposta é ajudar em situações de emergência, mas o criador reforça que o site não substitui o atendimento médico nem os protocolos oficiais.

Casos em alta

A presença de escorpiões e o risco de acidentes seguem elevados em diferentes regiões. Em Londrina, no norte do Paraná, a Secretaria Municipal de Saúde registrou, em 2026, até o início de abril, 632 ocorrências envolvendo escorpiões. Desse total, 515 foram apenas aparições do animal e 117 resultaram em acidentes.

Escorpião — Foto: Filipe Zampoli/TV TEM

Em 2025, foram 2.282 notificações, sendo 1.784 sem acidente e 498 com picadas.

Como o veneno age

Segundo o Instituto Butantan, o veneno dos escorpiões do gênero Tityus — como o escorpião amarelo, marrom e preto — provoca dor intensa no local da picada e pode afetar o sistema nervoso autônomo, responsável por funções como respiração, circulação e digestão.

Entre os sintomas estão náuseas, vômitos, dor abdominal, agitação e alterações na pressão arterial, que podem evoluir para quadros mais graves. Em casos severos, há risco de comprometimento cardíaco e dificuldade respiratória.

O tratamento é feito com soro antiescorpiônico, que neutraliza o veneno em circulação. A eficácia depende da rapidez na aplicação, que deve ser feita por via intravenosa, em ambiente hospitalar e com avaliação médica.

“A dose varia de acordo com a gravidade do quadro, definida pelos sintomas apresentados. A aplicação deve ser feita o mais rápido possível após o acidente”, informa o instituto.

A ferramenta

O site foi pensado para funcionar mesmo em situações de conexão limitada. Após o primeiro acesso, os dados podem ficar armazenados no dispositivo, permitindo consulta mesmo sem internet.

Site SoroJá — Foto Reprodução

Apesar da repercussão, o criador aponta um problema: a confiabilidade das informações disponíveis.

“Isso continua sendo a maior dificuldade. Apesar do site do Ministério da Saúde dizer que os dados são atualizados, não há informações precisas e em tempo real. O SoroJá, aparentemente, é uma das melhores fontes hoje. É preciso melhorar a troca de dados entre municípios, estados e governo federal”, afirma.

Eduardo diz que não pretende manter o projeto de forma independente a longo prazo. A ideia é repassar a ferramenta para algum órgão público.

“Gostaria de doar o site para o Ministério da Saúde, para o Centro de Informação e Assistência Toxicológica ou para qualquer instituição que possa garantir a atualização e a precisão dos dados”, afirma.

O que fazer em caso de picada

Não use pomadas no local, pois isso pode alterar a cor da pele e não impede a ação do veneno.

Lave a área imediatamente com água e sabão.

Não faça torniquetes, cortes ou sucção no local da picada.

Compressas mornas podem ajudar a aliviar a dor até a chegada ao atendimento.

Não coloque gelo na região.

Procure atendimento médico imediatamente.