Youtubers com Down usam a rede para ‘acabar com era preconceituosa’

22/03/2018 às 08:17.

Produção de vídeos para o Youtube e uso das redes sociais incentiva autonomia dessas pessoas e o combate ao preconceito, segundo terapeutas de Campinas.

O jovem Daniel, de Campinas, fala das vantagens e desvantagens de ser Down no seu canal no Youtube (Foto: Reprodução/Youtube)

O jovem Daniel, de Campinas, fala das vantagens e desvantagens de ser Down no seu canal no Youtube (Foto: Reprodução/Youtube)

A desenvoltura e a paixão pelas câmeras de jovens youtubers vão muito além da criação de vídeos quando os protagonistas lutam no combate ao preconceito. Com síndrome de Down, uma menina de 9 anos e um jovem de 23, ambos de Campinas (SP), se divertem ao mostrar cenas do cotidiano e como a tecnologia facilita o desenvolvimento e o empoderamento deles na sociedade.

“Criei o canal para acabar com essa era preconceituosa e [ser um incentivo] a favor da inclusão”, conta o jovem down Daniel Lino de Miranda, que usa plataformas digitais e redes sociais contra a discriminação.

Léticia Brocchi, apesar da pouca idade, é cheia de espontaneidade em frente às câmeras. Com temas infantis, mas que divertem e emocionam o público, a jovem mostra a rotina de aulas, passeios e brincadeiras. A mãe, Adriana Brocchi, conta que a menina usa a plataforma para interagir com os amigos e até treinar algumas habilidades, como a fala.

“Muitos pais assustam quando sabem da deficiência do filho. Para esses pais, eu gostaria de dizer: Eles podem tudo! No tempinho deles, eles podem ser o que quiserem”, afirma a mãe.

Letícia e a mãe Adriana Brocchi (Foto: Jorge Soares )

Letícia e a mãe Adriana Brocchi (Foto: Jorge Soares )

Compartilhar ideias

Com a ajuda da mãe e de uma amiga para a gravação e edição dos vídeos, Daniel conta que seu canal foi feito para compartilhar ideias sobre a síndrome de Down para todas as pessoas. Seu canal no YouTube, criado em fevereiro de 2017, tem quase mil inscritos.

Danny, como é conhecido, participa do programa vida adulta no Centro de Educação Especial Síndrome de Down (Ceesd), que realiza trabalhos interdisciplinares para facilitar a inserção dessas pessoas na vida em sociedade e no mercado de trabalho.

Lívia Rech de Castro, psicóloga do projeto que Daniel participa, afirma que essa inserção tecnológica estimula a participação de downs na sociedade e no contexto dos dias atuais.

“A gente trabalha os riscos de conversar com pessoas desconhecidas, a vulnerabilidade das redes, da internet e da exposição da imagem, mas como forma de empoderá-los e diminuir esses riscos para que eles acessem esses recursos como qualquer outra pessoa”, conta.

Daniel Miranda tem síndrome de Down e criou o canal no Youtube em fevereiro de 2017  (Foto: Jade Castilho/G1)

Daniel Miranda tem síndrome de Down e criou o canal no Youtube em fevereiro de 2017 (Foto: Jade Castilho/G1)

Influência saudável

A não ser pelas sessões de acompanhamento e terapias, a rotina de Letícia se difere pouco do cotidiano de outras crianças da mesma idade. Ela vai à escola, faz lição de casa e brinca, longe ou perto das câmeras. O canal faz sucesso entre os coleguinhas do colégio.

“Frequentemente, as mães de amigas e amigos dela se divertem comentando sobre o filho não querer dormir, ou fazer outra atividade, porque estavam assistindo aos vídeos dela”, relata Adriana.

A mãe conta, ainda, que o canal começou nas brincadeiras de Letícia. Influenciada por youtubers da mesma faixa etária, ela já falava o bordão de abertura do atual canal “Oi amiguinhas e amiguinhos” por todos os cantos.

”Perguntei se ela gostaria de ter um canal e ela respondeu que sim, sem nem hesitar. Nos divertimos muito fazendo os vídeos, ela pede para ser gravada sempre”, diz a mãe, que grava e edita todo o material produzido.

Com síndrome de Down, a menina Letícia de Campinas, se despede dos espectadores em seu canal no Youtube (Foto: Reprodução/Youtube)

Com síndrome de Down, a menina Letícia de Campinas, se despede dos espectadores em seu canal no Youtube (Foto: Reprodução/Youtube)

Tecnologia que educa

O lazer não é a única função da internet na vida da pequena youtuber. A ferramenta é utilizada com frequência nas sessões de terapia de Análise Comportamental Aplicada, no Grupo Conduzir, do qual a jovem é paciente .

”Invariavelmente, as crianças precisam ser incluídas no mundo digital para conseguirem ter bom desenvolvimento. Seja na escola, futuramente no mercado de trabalho e até na vida amorosa”, ressalta a neuroterapeuta Renata Michel.

Para Renata, a internet é parte integrada da vida social na atualidade e ter pessoas diferentes neste meio educa, normaliza as diferenças e ensina muito sobre inclusão.

A youtuber mirim Letícia Brocchi e sua mãe Adriana Brocchi, em Campinas (Foto: Adriana Brocchi/Arquivo Pessoal)

A youtuber mirim Letícia Brocchi e sua mãe Adriana Brocchi, em Campinas (Foto: Adriana Brocchi/Arquivo Pessoal)

Via: G1