Sirene para espantar cães gera polêmica em terminal de ônibus

11/08/2017 às 10:18.

Equipamento foi instalado sem a autorização da prefeitura. Segundo empresa responsável, aparelho foi a última saída para lidar com problema

A empresa que administra a operação do Terminal de Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba, instalou sirenes que impedem a aproximação e a permanência de cães no local. De acordo com representantes do Grupo Leblon, a presença dos cachorros abandonados tem representado risco à segurança dos passageiros e dos funcionários.

A prefeitura da cidade alega que a atitude foi tomada à revelia da administração municipal. ”A Prefeitura de Fazenda Rio Grande informa que desconhecia a realização de testes de qualquer origem para o afastamento de cães do terminal e que estão sendo tomadas providências para que usuários não sejam prejudicados, assim como os animais”, diz a nota divulgada à imprensa.

A empresa instalou cinco sirenes em diversos pontos do terminal no último sábado (5). O Grupo Leblon afirma que os aparelhos foram a “última alternativa” e que eles não representam risco ou agressão aos cães e aos frequentadores do terminal. “Tal tecnologia emite uma frequência sonora que é incômoda aos cães, mas não causa nenhuma lesão”.

De acordo com um dos coordenadores do grupo, que não quis se identificar, a prefeitura de Fazenda Rio Grande e a Câmara Municipal foram oficiadas para tentar resolver o problema. “Os departamentos de ação social e urbanismo disseram que não têm o que fazer. A Câmara entrou com um pedido para que a empresa colocasse cama para os cachorros no terminal. Mas nós não podemos fazer isso. Nós damos todo o apoio, gostamos dos animais, mas não somos um órgão público”, afirma.

De acordo com esse representante, os cachorros correm atrás das pessoas e já morderam dois passageiros idosos. “Eles brigam na fila, não são vacinados, tem as cadelas no cio que atraem mais cachorros. Tudo isso representa risco”, afirma. Na nota, a empresa alega que até as fezes dos cães têm agravado o problema. “Passageiros escorregaram nestas fezes e se feriram. Um deles lesionou um dos tornozelos e teve de ser submetido à cirurgia”.

A passageira Jéssica Martins, de 17 anos, que passa por este terminal todos os dias, reconhece a quantidade enorme de cachorros, mas afirma que nunca presenciou um ataque. “Sou totalmente contra essa iniciativa. Ela só afasta os cachorros do terminal, mas eles continuam pelas ruas. Eles teriam que ser devidamente castrados. Além disso, nunca vi ameaçarem ninguém”.

/ra/pequena/Pub/GP/p4/2017/08/10/Curitiba/Imagens/Vivo/4b7777e9-b333-4c8b-b15e-96137653b068.jpgEquipamento foi instalado à revelia da prefeituraAniele Nascimento/Gazeta do Povo

Consequências

A empresa afirma que os sons não produzem danos, mas especialistas discordam. A veterinária Adriane Molardi Bainy afirma que o zunido pode ser muito prejudicial. “Pode afetar o tímpano se for muito alto. Em casos mais extremos pode gerar lesão física. Além do dano psicológico. É um barulho mecânico, logo é novo, que eles nunca ouviram enquanto filhotes. É o que gera o susto, a fobia. Eles associam o barulho a uma sensação muito ruim. Por isso se escondem”, explica.

Biany destaca também que o incômodo perene pode agravar problemas cardíacos e endócrinos, principalmente em cães mais velhos. “Obviamente tem um impacto. A audição dos cães é duas vezes mais sensível que a nossa. Nós escutamos sons na faixa de 15 a 20 mil hertz. Cães escutam de 10 a 40 mil. Eles ouvem qualquer som numa distância quatro vezes maior do que nós”, afirma a veterinária do HiperZoo.

Alexander Welker Biondo, professor da UFPR e especialista em zoonoses, afirma que esse tipo de ação não ataca a origem – o abandono do animal. “Se houvesse risco para a saúde publica, os representantes deveriam realmente estudar uma ação. Mas existem estudos internacionais que provam que os cães comunitários não têm doença, não transmitem doenças para os seres humanos”, afirma. “E tem mais. Eles são bons sentinelas de saúde, ajudam a monitorar a saúde dos seres humanos”.

De acordo com Biondo, que desenvolve uma tese de pós-doutorado na USP sobre a relação entre moradores e cães de rua, os animais são atraídos por conta da comida. “E não vemos, por exemplo, preocupação com limpeza, com educação, com o ambiente. Os cães comunitários são os menores problemas da saúde pública”. O professor também lembra que, em 2016, uma pesquisa realizada no Paraná apontou que a aprovação do acolhimento de animais de rua em terminais é de 75%.

Via: Gazeta Do Povo