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Sem apoio de Renato Aragão e Dedé, documentário sobre “Os trapalhões” conta a história e os conflitos da trupe

10/12/2019 às 10:53.

Por mais de três décadas, brasileiros de todas as idades acompanharam, uma vez por semana, o humor caricatural (por vezes inocente, mas dotado de esquetes que hoje soariam politicamente incorretas) de Os Trapalhões. Com suas piadas sobre homossexuais, mulheres, negros, nordestinos e pobres, Didi (Renato Aragão), Dedé (Manfried Sant’Anna), Mussum (Antônio Carlos Gomes) e Zacarias (Mauro Faccio) tornaram-se fenômenos da TV nacional e alcançaram recorde mundial de permanência de programa humorístico no ar registrado no afamado “Guinness”.

Muito já se noticiou acerca da trajetória do grupo, mas nem tudo veio à tona. Essa longa história, sobretudo os bastidores, são o mote do documentário “Trapalhadas sem fim”, do diretor Rafael Spaca. Fã do quarteto desde a infância, o jornalista já escreveu dois livros sobre eles, “As HQs dos Trapalhões” e “O cinema dos Trapalhões”. Sua minuciosa e extensa pesquisa sobre a trupe foi o ponto de partida para o filme, que reúne 65 depoimentos de anônimos, como o gerente de banco e a camareira que os atendia, e personalidades que conviveram com os comediantes, a exemplo de Pelé, Angélica, Tony Ramos e Caetano Veloso.

Pelé foi o último entrevistado para o documentário, Caetano citou quarteto em música e Angélica atuou em filme de 'Os Trapalhões'
Pelé foi o último entrevistado para o documentário, Caetano citou quarteto em música e Angélica atuou em filme de ‘Os Trapalhões’ Foto: Divulgação

— Eles são o maior grupo de humor do mundo. Três Patetas, O Gordo e o Magro e Irmãos Marx não conseguiram o que Os Trapalhões fizeram por tanto tempo e com tanto sucesso. Foram os únicos que chegaram a ameaçar o monopólio de Mauricio de Sousa com “A Turma da Mônica”, em termos de vendagem. É um caso único, e a ideia é valorizar esta história — justifica o diretor.

Com estreia prevista para o primeiro semestre de 2020, o longa terá dois cortes, um para o cinema e outro para a televisão, com cinco episódios de 50 minutos cada. Afinal, são 80 horas de material bruto coletado.

— É uma narrativa imparcial e independente sobre o grupo, que procura se aproximar o máximo possível da realidade, sem distorcer e sem pretensão de derrubar ninguém. Entre os elogios, há também críticas. Faz parte. Como jornalista, mostro os dois lados da história. Acho que nem Renato faria um trabalho como esse, tão completo e com pesquisa plural sobre o grupo. Só para se ter uma ideia, o teaser do filme já é o segundo mais visto da história do cinema documental nacional.

O outro lado da história por Didi e Dedé

Como nem tudo acaba em risadas, o documentário tem sido alvo de polêmica, uma vez que Renato Aragão e Dedé Sant’Anna, os dois integrantes vivos da formação clássica, não apoiam a produção. Por meio de comunicado, a RA Produções disse que não se pronunciará mais sobre o assunto, além do que os advogados já informaram: “Atualmente, Renato Aragão se dedica a fazer um registro de sua trajetória artística. Em função disso, ele, até mesmo para cumprir obrigações contratuais, não irá se manifestar sobre outros trabalhos, não autorizados, que tratem de sua vida. Outro trecho corrobora: “Como homem público, Renato Aragão respeita quem queira tratar de sua história, desde que isso seja feito com ética, correção e rigor na apuração dos fatos. Se houver acusações levianas ou falsas, serão, obviamente, tomadas as medidas pertinentes”. Dedé também não respondeu ao pedido de entrevista do EXTRA.

Relação conturbada e com mágoas

Os depoimentos revelaram algumas surpresas.

— Senti muita gente descarregando todas as suas angústias, seus sentimentos, bons ou ruins, e isso foi o que mais me surpreendeu. Muitas coisas que eram tabus, folclores relacionados aos Trapalhões saíam com muita naturalidade da boca dos entrevistados — revela Spaca.

O diretor destaca alguns dos desabafos:

— Conversei com Baiaco, que foi dublê de Renato, e ele disse que após “A Turma do Didi”, o humorista virou as costas para ele, que aguentou esses anos de relação difícil porque precisava trabalhar, mas que Renato nunca foi um cara legal. Ferrugem citou a questão de, ainda na Tupi, Renato querer sempre os melhores papéis para ele.

Spaca diz ainda que tentou entrevistar Xuxa, sem sucesso.

— Ao enviar o pedido, recebi um e-mail de Lilian (Aragão) dizendo que eu não poderia fazer o filme. Proibiram outras pessoas de falarem comigo, mas entre os magoados e os boicotados, consegui falar com todos — afirma o diretor.

O racha e a conciliação dos comediantes

O protagonismo do intérprete de Didi causou incômodo aos colegas. Em agosto de 1983, veio o estopim. Após a publicação de uma reportagem que o evidenciava como estrela principal e abordava sua fortuna, Dedé, Mussum e Zacarias, enciumados, anunciaram o rompimento da trupe em entrevista coletiva no Teatro Fênix (ao lado de Didi, que foi pego de surpresa).

— Os três partiram para o projeto do filme “Atrapalhando a Suate” e Renato foi fazer “O trapalhão na Arca de Nóe”. A ideia era provar que um não dependia do outro. Trabalharam e lançaram praticamente ao mesmo tempo. O público ficou dividido entre as duas produções e a bilheteria foi ruim para ambas — relata Spaca, que detalha no filme como se deu a reconciliação, no restaurante do Hotel Méridien, no Leme, na Zona Sul do Rio:

— Em março de 1984, Beto Carrero, então sócio de Renato, fez uma jogada: convidou-os para um encontro, sem que um soubesse da presença do outro. Eles saíram de lá com as pazes feitas.

Via: Jornal Extra