Projeto gratuito da universidade Estadual do Paraná cuida de bebês enquanto mães estão em sala de aula

07/03/2018 às 08:15.

Espaço da Mamãe Universitária foi criado em 2004 para atender mães lactantes e, atualmente, também serve como laboratório para estudantes de pedagogia.

Projeto gratuito de universidade do PR garante cuidados a bebês enquanto mães estão em sala de aula (Foto: Pemu/Divulgação)

Projeto gratuito de universidade do PR garante cuidados a bebês enquanto mães estão em sala de aula (Foto: Pemu/Divulgação)

O Projeto Espaço da Mamãe Universitária (Pemu) garante cuidados gratuitos a bebês enquanto as mães estão em sala de aula, no campus da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) que fica em União da Vitória, no sul do estado.

Criado em 2004 para atender mães que estavam amamentando, mas queriam continuar frequentando a universidade, o Pemu foi transformado em projeto de extensão e, atualmente, funciona como uma espécie de laboratório para estudantes de pedagogia da instituição.

Para Kelly Mari Kreve, de 32 anos, o projeto permitiu que ela continuasse cursando a graduação em ciências biológicas após o nascimento de Maria Cecília, há um ano e nove meses.

“Para mim é muito bom. Meu marido é vendedor, e não é toda noite que ele está em casa. Se não existisse o Pemu para me ajudar, eu teria que trancar a faculdade”, disse.

Maria Cecília frequenta o projeto desde os dois meses de idade, e Kelly conta que nunca teve problemas. A filha adora, e os professores são compreensivos quando a mãe é acionada por meio do telefone celular para ir até o espaço onde ficam as crianças.

“Já saí no meio de prova, e o professor não reclamou”, lembra.

Maria Cecília, atualmente com um ano e nove meses, frequenta o Pemu desde os dois meses de idade, enquanto a mãe cursa ciências biológicas (Foto: Pemu/Divulgação)

Maria Cecília, atualmente com um ano e nove meses, frequenta o Pemu desde os dois meses de idade, enquanto a mãe cursa ciências biológicas (Foto: Pemu/Divulgação)

O atendimento das crianças é feito de acordo com as necessidades da família, e a coordenadora do Pemu, Rosana Beatriz Ansai, conta que filhos de pais universitários, professores e funcionários também são bem-vindos ao projeto.

A professora do curso de química Deise Borchhardt ficou impressionada com a estrutura quando começou a trabalhar na Unespar, em 2012, e não tinha com quem deixar os filhos – o casal de gêmeos Manuela e João Pedro – enquanto dava aulas no período da noite.

“Se não tivesse essa ajuda teria sido muito difícil”, contou.

Manuela e João Pedro têm hoje seis anos, mas lembram com carinho do Pemu, e toda vez que vão até a universidade com a mãe fazem questão de dar uma olhada no local.

De lá também nasceu uma grande amizade, com o filho de um professor e de uma funcionária da instituição, que também ficava no projeto enquanto os pais trabalhavam.

Deise acha o projeto muito importante, principalmente para as mães universitárias. “Eu vejo o peso de elas [mães universitárias] não pararem de estudar”, argumenta.

Os irmãos gêmeos Manuela e João Pedro, filhos da professora Deise Borchhardt, quando frequentavam o projeto (Foto: Deise Borchhardt/Arquivo pessoal)

Os irmãos gêmeos Manuela e João Pedro, filhos da professora Deise Borchhardt, quando frequentavam o projeto (Foto: Deise Borchhardt/Arquivo pessoal)

O projeto

O projeto começou em uma sala do campus e ganhou o nome da idealizadora do espaço, a professora Maria Sidney Barboza Gruner, após o falecimento dela, em 2009.

A atual coordenadora do Pemu, Rosana Beatriz Ansai, disse que, com o aumento de estudantes no campus, houve a necessidade de adequação do Pemu, que agora atende nos três períodos: manhã, tarde e noite.

Segundo Ansai, são nove cursos de graduação e aproximadamente 1,2 mil alunos no campus União da Vitória da Unespar.

Atualmente, o projeto atende crianças de três meses a 2 anos e nove meses. Em algumas noites, o espaço chega a receber 14 bebês, sendo que o limite é de 15 crianças por período.

Durante o tempo que as crianças ficam no espaço, elas participam de brincadeiras sensório-motoras, de acordo com a fase de desenvolvimento delas.

Elas trabalham com atividades de assoprar, apalpar, cantar, entre outras, conforme explicou a coordenadora.

Além disso, as mães são chamadas pelas estagiárias ou monitoras sempre que necessário, e todos os professores têm conhecimento do projeto e permitem a saída das alunas.

“Quando a mãe está amamentando (…) ela já fica com o celular na mão [em sala de aula], e os professores já sabem que é uma mãe lactante, que vai se ausentar da sala de aula para atender as demandas da amamentação”, contou Ansai.

A coordenadora Rosana Beatriz Ansai (sentada à esquerda) com a equipe do Pemu preparando o atendimento das crianças para 2018 (Foto: Pemu/Divulgação)

A coordenadora Rosana Beatriz Ansai (sentada à esquerda) com a equipe do Pemu preparando o atendimento das crianças para 2018 (Foto: Pemu/Divulgação)

Espaço de formação

Segundo Ansai, além de atender as demandas das mães lactantes, o projeto também ganhou novos objetivos ao servir também de espaço de formação para os estudantes de pedagogia.

“Quando eu assumo, eu começo a olhar a importância do espaço como um lócus [lugar] colaborativo de formação docente inicial e garantidor dos direitos das mães universitárias, de acesso e permanência na universidade”, explicou.

Além de oportunidade de estágio e monitoria, o Pemu também fonte de informações para pesquisas sobre o desenvolvimento das crianças, relacionadas à formação docente inicial e gestão escolar na área da educação infantil.

“Todas as estagiárias estão bem colocadas no mercado de trabalho depois de passar pelo projeto”, comemora Ansai.

A ideia é, futuramente, expandir o projeto para crianças mais velhas.

No tempo que ficam no projeto, as crianças participam de brincadeiras sensório-motoras, de acordo com a fase de desenvolvimento delas. (Foto: Pemu/Divulgação)

No tempo que ficam no projeto, as crianças participam de brincadeiras sensório-motoras, de acordo com a fase de desenvolvimento delas. (Foto: Pemu/Divulgação)

Oportunidade de aprendizado

Estudante do último ano de pedagogia, Bruna Pinheiro, de 21 anos, diz que o Pemu é uma oportunidade única para unir a teoria e a prática ainda durante a graduação.

“O Pemu torna essa minha formação inicial mais rica”, declarou.

Ela faz estágio no projeto há oito meses, trabalhando diretamente com as crianças. Antes disso, foi bolsista e atuou na parte voltada à orientação dos pais e organização de documentos.

Bruna conta que o maior aprendizado desse período será o trabalho do afeto com as crianças.

“O que eu aprendi em sala de aula é trabalhar o afeto com a criança, levar pro lado mais humano. Não só cuidar de uma maneira mais prática, mas justamente o afeto com o bebê”, pontuou.

Além de ajudar na formação, a estudante ressalta a importância do projeto na redução da evasão das mães, deixando todas mais seguras para continuar a estudar.

“A gente cria um vínculo com as mães e tem um retorno [elas dizem]: se não fosse por você e pelo projeto eu não estaria estudante agora”, conta.

E estagiária do Pemu Bruna Pinheiro, de 21 anos, durante festa junina feita para as crianças que frequentam o Pemu (Foto: Bruna Ribeiro/Arquivo pessoal)

E estagiária do Pemu Bruna Pinheiro, de 21 anos, durante festa junina feita para as crianças que frequentam o Pemu (Foto: Bruna Ribeiro/Arquivo pessoal)

Manutenção

Com a oferta de apoio gratuito aos estudantes universitários, a sobrevivência do projeto depende de doações, trabalho voluntário e monitoria apoiada pelos professores do curso de pedagogia.

São duas estagiárias remuneradas e, todo ano, em média dez estudantes do terceiro ano do curso de pedagogia fazem estágio obrigatório do curso, na modalidade educação infantil, no Pemu.

O projeto também é contemplado anualmente com uma bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Extensão Universitária (Pibex).

Para o início do ano letivo de 2018, as estagiárias ajudaram a fazer as melhorias no espaço do Pemu para receber as crianças. A direção do campus e o colegiado do curso de pedagogia financiaram a compra das tintas que deram nova cara ao projeto.

Via: G1