Piá de prédio, é frio como o clima e come vina. O que faz um curitibano “de raiz”?

15/09/2017 às 08:47.

Hábitos curiosos tornam o curitibano ainda mais curitibano, mas mesmo quem não nasceu na cidade e já adotou Curitiba no coração adota características inusitadas. Você se identifica?

Curitibanos têm uma personalidade própria, que já rendeu muita piada pelo Brasil afora. Foto: Daniel Castellano / Gazeta do PovoCuritibanos têm uma personalidade própria, que já rendeu muita piada pelo Brasil afora. Foto: Daniel Castellano / Gazeta do Povo

“Os curitibanos são tão frios quanto Curitiba.” Fazer esse tipo de descrição para falar de quem nasceu  – ou vive há muito tempo na capital paranaense –  é chover (e muito) no molhado, mas tem lá as suas origens. Mesmo com os picos de calor – que também rendem muitas reclamações – o clima frio e a fácil comparação com os “corações gelados” não é a única característica que faz Curitiba e seus moradores serem o que são.

A população local apresenta em seu comportamento e cultura uma série de peculiaridades. Quem chega de outras paragens pode se surpreender com o vocabulário, as iguarias e a cultura popular curitibana. O Viver Bem listou algumas típicas “curitibanices”. Veja se você é um autêntico curitibano.

Já comeu carne de onça?

Um dos pratos típicos de Curitiba, a carne de onça é muitas vezes surpreendente. “Mas é de onça mesmo?”, questionam forasteiros, entre curiosos e assustados com o nome do prato. Não, não é. Carne de onça é nada mais que carne fresca, crua, moída e misturada com cebola e outros temperos, normalmente servida sobre um pedaço de broa. Esse é um prato tão tradicional que, em 2016, a carne de onça virou Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial de Curitiba, com a sanção da Lei 14.928. Embora haja pratos similares em outros países, a versão curitibana é diferente de todos eles.

A tipicamente curitibana carne de onça é servida sobre broa de centeio. Foto: Priscila Forone/Gazeta do Povo

A tipicamente curitibana carne de onça é servida sobre broa de centeio. Foto: Priscila Forone/Gazeta do Povo

Mas é um piá de prédio mesmo!

Presença comum em conversas entre curitibanos, o piá de prédio é quase uma figura mística do folclore de Curitiba. A julgar pelos contextos em que ele é evocado, trata-se de uma péssima pessoa. O curitibano chama de piá de prédio qualquer um que não tenha malandragem, que não tenha traquejo. O gaúcho Fagner Zadra, conhecido pelos esquetes do grupo “Tesão, Piá”, mora em Curitiba há 13 anos e tenta definir o personagem. “Piá de prédio é aquele que parece que foi criado pela avó. É o piá mimado, o piá que nunca foi em rio, só vai em clube. O piá de prédio é aquele criado na cidade, em apartamento, sempre protegido pela família.”

O povo mais ocupado – ou magoado – do Brasil

Nunca convide um curitibano para sair em cima da hora do rolê. Ou convide, mas saiba que eles vão recusar. Provavelmente dirão que já têm outro compromisso, o que pode ser verdade, mas também pode ser só uma maneira de escapar do convite. Isso porque, de acordo com alguns curitibanos ouvidos pelo Viver Bem, eles não acham de bom tom esse tipo de abordagem. “É falta de educação ser convidado assim, em cima da hora”, disse, aos risos, uma delas. Zadra questiona. “O clima de Curitiba é totalmente inesperado. Curitibanos são treinados para lidar com coisas inesperadas”, diverte-se. Parece que curitibanos precisam se preparar com antecedência para tomar uma cerveja, ainda que seja no boteco mais pé-sujo da cidade. “O que acho que acontece é que os curitibanos são mais organizados, preferem ter as coisas marcadas com horário certo. Isso se reflete na cidade, que é mais organizada”, diz o comediante. Da próxima vez que quiser a presença do seu nativo curitibano em uma roda de amigos, tente enviar um “save the date”.

Tira, tira, tira

Sim, Curitiba pode ser muito fria. Mas também é verdade que, ao longo do dia, principalmente nos meses de primavera e outono, a temperatura varia bastante. Por isso as pessoas usam muitas camadas de roupas, que vão sendo retiradas conforme aumenta o calor. É o famigerado “efeito cebola” – e não há japona que resista ao avanço dos graus no termômetro. Bônus track: a japona. Segundo o dicionário Michaelis, japona é um substantivo feminino que significa “jaqueta esportiva de inverno, geralmente de lã, semelhante à japona dos marinheiros”. Na terra das capivaras, no entanto, japona é casaco de frio, não necessariamente esportivo, não necessariamente de lã, não necessariamente parecida a algo que marinheiros usam.

O frio faz com que o curitibano saia de casa com muitas camadas de roupa, que vão sendo tiradas ao longo do dia, causando o chamado "efeito cebola". Foto: Cesar Machado

O frio faz com que o curitibano saia de casa com muitas camadas de roupa, que vão sendo tiradas ao longo do dia, causando o chamado “efeito cebola”. Foto: Cesar Machado

Não existe salsicha em Curitiba

Embora a cidade esteja cheia de bares e restaurantes especializados em culinária alemã, você não vai encontrar uma única salsicha nos mais de 435 km² de área do município. Não adianta procurar nas barracas de cachorro-quente ou mesmo no famoso Bar do Alemão, no Largo da Ordem. Em Curitiba não se come salsicha, come-se vina, que é a mesma coisa, mas com um nome diferente. Há quem diga que a explicação para o termo vem do passado remoto da região. Havia um tipo de salsicha chamado “wienerwurst”, que foi sendo encurtado e acabou virando “vina” na pronúncia popular.

Em Curitiba, salsicha é "vina". O termo pode ser uma abreviação de "wienerwurst", como eram chamadas as salsichas de Viena. Foto: Pedro Serapio/Gazeta do Povo

Em Curitiba, salsicha é “vina”. O termo pode ser uma abreviação de “wienerwurst”, como eram chamadas as salsichas de Viena. Foto: Pedro Serapio/Gazeta do Povo

A Trajano não é uma pessoa

“Hoje não dá, eu combinei de ir beber na Trajano.” Essa frase 100% verídica traz uma compilação de dois itens desta lista: um curitibano recusando um convite de última hora e tratando a rua Trajano Reis com uma intimidade que só seria aceitável se ela fosse um ser humano. É que “a Trajano”, que fica no histórico bairro do São Francisco, é o endereço de muitos bares e lanchonetes que atraem gente de diversas idades para tomar uma cerveja, saborear um hambúrguer ou só conversar com os amigos. Bônus track: nos últimos anos, empreendimentos parecidos com os da Trajano começaram a ser abertos em outra rua, a Vicente Machado, no centro. Por isso agora também é possível ouvir a variação “marquei com meus amigos na Vicente”.

A Rua Trajano Reis é ponto de encontro por causa dos muitos bares e lanchonetes que lotam as calçadas. Foto: Pedro Serapio/Gazeta do Povo

A Rua Trajano Reis é ponto de encontro por causa dos muitos bares e lanchonetes que lotam as calçadas. Foto: Pedro Serapio/Gazeta do Povo

Sou curitibano, mas não sou curitiboca!

O adjetivo pátrio oficial para quem nasce em Curitiba é “curitibano”, como afirma o Michaelis. Mas, se você conhece algum curitibano, é possível que já tenha ouvido a frase “eu sou curitibano, não curitiboca”. Fora do dicionário, o curitiboca existe no vocabulário oficial de gírias da cidade – e infiltrado na sociedade da capital, como juram muitos curitibanos. Para Zadra, “o curitiboca é aquele nascido na gema mesmo. É o curitibano que nasceu aqui e nunca saiu daqui, só faz as coisas daqui e tudo mais”. Ele só não sabe explicar por que os curitibanos se ofendem tanto com a alcunha.

Você sabe comer pinhão do jeito certo?

A árvore símbolo do Paraná tem uma semente que faz muito sucesso no sul do país. O pinhão pode ser consumido de várias formas diferentes e está presente em receitas variadas, feitas em todas as partes do estado. Mas os curitibanos juram que só eles sabem comer pinhão “do jeito certo”. E vivem perguntando se você também tem essa habilidade. E qual seria esse jeito? Alguns curitibanos ouvidos pela reportagem ensinaram que a melhor maneira de apreciar o pinhão é morder a parte de trás dele até que o conteúdo saia de dentro da casca.

O pinhão é versátil e pode ser usado em receitas doces e salgadas. Na foto, o entrevero de pinhão. Foto: Fred Kendi/Gazeta do Povo

O pinhão é versátil e pode ser usado em receitas doces e salgadas. Na foto, o entrevero de pinhão. Foto: Fred Kendi/Gazeta do Povo

Glossário curitibano

Entre as muitas gírias próprias da cidade figuram termos como “jaguara”, “loke” e “djanho”. Zadra explica que o primeiro é o exato oposto do piá de prédio. Para ele, jaguara é o malandrão, uma pessoa esperta. “Piá do djanho é como se fosse um piá do diabo. Arteiro, sapeca, esse tipo de coisa. Já o loke é o loke mesmo, aquele cara bem loucão. Aqui as pessoas dizem ‘ah, não me tire para loke’. O loke é o maluco”, ri.

Toda a construção da personalidade curitibana faz dos moradores da cidade brasileiros únicos. Questionado por que o curitibano é diferente das outras pessoas, o comediante não pensa suas vezes. “Porque é melhor. Se não fosse melhor, eu não estaria aqui, teria escolhido outro lugar para viver. O curitibano gosta de ser diferente e faz com que isso aconteça. E a cidade é reflexo das pessoas, por isso é uma cidade mais limpa e mais organizada que outras capitais.”

Via: Gazeta Do Povo