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Pesquisa aponta alta no uso de melatonina para crianças dormirem; saiba se substância é segura

22/05/2020 às 14:34.

 

Nos Estados Unidos, a melatonina é comercializada livremente (Foto: Guto Seixas / Editora Globo)

 

Uma pesquisa publicada nesta segunda-feira (18) pelo jornal americano NY Times aponta que quase metade das crianças com dificuldades para dormir nos Estados Unidos fazem uso de melatonina. O estudo entrevistou 933 pais com filhos menores de idade, e apesar de corresponder a uma pequena amostra, reflete, segundo especialistas, a tendência de alta no uso de suplementos com a substância para crianças.

A melatonina é um hormônio secretado pelo corpo depois do anoitecer, que funciona como uma espécie de regulador do relógio biológico e induz à sonolência.

Nos Estados Unidos, a substância é vendida livremente na forma de líquidos, gomas, mastigáveis, cápsulas e comprimidos, todos com instruções de dosagem diferentes. No Brasil, atualmente não há registro na Anvisa de medicamento com o princípio ativo da melatonina, mas é possível encontrar a substância à venda em algumas farmácias de manipulação, amparadas por uma decisão judicial. A legislação garante, ainda, que pacientes que recebam a indicação por um médico possam importar para uso próprio, seja via bagagem de mão ou pela internet. Também é possível encontrar a substância em suplementos alimentares – o que dificulta sua regulamentação e a fiscalização de dosagens.

“A melatonina exógena não é exatamente igual àquela que a gente produz. E a forma como ela é secretada também é diferente de quando a consumimos em cápsulas, por exemplo. Ela é muito positiva para quem tem problemas com o ciclo circadiano. Um deficiente visual, por exemplo, que não diferencia o dia e a noite. Ou pacientes com doenças neurológicas graves, mas não deve ser usada indiscriminadamente e sem orientação médica”, alerta Gustavo Antônio Moreira, presidente do Departamento Científico de Medicina do Sono da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

A luz – natural ou artificial, como de telas de eletroeletrônicas – inibe a produção da melatonina. Por isso é importante reduzir as atividades em casa cerca de uma hora antes de dormir. “É comum que as pessoas fiquem consumindo informação nas telas até tarde, e depois queiram um comprimido mágico que as ajude a dormir”, explica Moreira.

Nas crianças, a principal causa de problemas com o sono e de uso de medicamentos é a chamada insônia comportamental. Quando a criança faz birra para dormir. “É importante que a gente investigue como é a rotina familiar para entender o que pode estar inibindo a produção da melatonina. O medicamento só deve ser usado em casos específicos e não de forma abusiva.”

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), existem poucos dados em relação a influências indiretas a longo prazo da melatonina sobre o organismo. Apesar de ser conhecida a sua função de potente indutor do sono, não está claro como a substância se comporta. Trabalhos recentes (sob a forma de estudos de caso) relatam alguns distúrbios do sono, principalmente pesadelos, quando utilizada em altas doses. Alguns estudos apontam ainda a possibilidade de puberdade precoce em crianças que fizeram uso da substância.

Existem outras preocupações também. Os efeitos colaterais podem incluir sonolência pela manhã, agitação, dores de cabeça e aumento da micção durante a noite. E a melatonina pode interagir mal com alguns medicamentos. Por isso a importância de consultar um médico antes de medicar as crianças.

Bons hábitos de sono

Mas então, como ajudar as crianças a terem uma boa noite de sono?

É fundamental compreender que as oscilações no sono são normais entre as crianças pequenas e os números de despertares tendem a diminuir com o passar dos anos. Além disso, também cabe aos pais criar um ambiente que dê à criança condições de um descansar mais tranquilo.

“Ao escurecer, nossa recomendação é diminuir também a quantidade de luz artificial em casa, não fazer atividades físicas e sim coisas calmas, e uma hora antes de dormir desligar todos os eletroeletrônicos. Outra dica é criar uma rotina de sono, com horários regulares para ir para a cama”, diz o especialista.

Independentemente da quantidade de vezes que seu filho desperta a noite, uma boa forma de saber se ele está descansando o suficiente é observar o seu comportamento durante o dia: se apresenta falta de atenção, sonolência, irritabilidade e agressividade.

Via: Revista Crescer