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Menos apito de trem em Curitiba? Nova ferrovia pode aliviar o barulho na capital

15/06/2021 às 08:27.

Locomotiva da Ferroeste. Foto: Jaelson Lucas / AEN

O traçado completo e definitivo da Nova Ferroeste, estrada de ferro que vai ligar Maracaju (MS) ao Porto de Paranaguá (PR), ainda não está definido e depende de estudos ambientais e de engenharia que estão em curso. Mas, uma coisa é certa: a nova ferrovia não passará por Curitiba. O novo traçado prevê que a partir da Lapa o trem siga para Paranaguá, margeando a BR 277.

Com isso, a maioria dos trens de carga que hoje passa por dentro da capital, cortando os bairros das regiões Sul e Leste, poderá deixar de trafegar, começando a solucionar um problema de décadas e atendendo a uma reivindicação antiga dos curitibanos.

Não será ainda a extinção completa dos apitos de trem em meio aos prédios da cidade, porque continuarão a circular ainda os comboios que vêm de Rio Branco do Sul e Almirante Tamandaré, carregados com cimento com destino à rodoferroviária, passando pelos bairros da região Norte. Estes deixarão de circular por dentro da cidade apenas depois da construção do contorno ferroviário, obra que integra a prorrogação da Malha Sul, ainda sem data prevista.

“Curitiba tem que resolver o conflito entre a ferrovia e a cidade e a Nova Ferroeste vai começar a solucionar esse problema”, afirma Luiz Henrique Fagundes, coordenador do Plano Estadual Ferroviário. Segundo ele, o trilho que hoje passa por Curitiba e deixará de ser usado para o transporte de carga poderá servir para instalação de um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), como apoio ao sistema de transporte urbano. A centenária ferrovia da Serra do Mar, por outro lado, poderá explorar mais intensamente seu potencial turístico, com viagens diárias de trens de passageiros, que hoje não são possíveis devido à disputa de espaço com a carga pesada.

Dados do Programa Nacional de Segurança Ferroviária Prosefer revelam que Curitiba e Paranaguá encabeçam um ranking das piores cidades com conflitos urbanos envolvendo linhas férreas no Brasil. Curitiba está em primeiro lugar e Paranaguá em segundo. Além de resolver o problema na capital, os estudos da Nova Ferroeste preveem também reduzir ao máximo a interferência ferroviária no perímetro urbano de Paranaguá, até chegar ao porto.

Nova ferrovia significará mais rapidez na descida da Serra do Mar

A Nova Ferroeste vai garantir mais eficiência e rapidez na descida da Serra do Mar. A ferrovia atual foi inaugurada em 1885, no período imperial. “Foi construída com a tecnologia que existia na época. As curvas são muito fechadas e as rampas muito íngremes”, observa João Arthur Mohr, gerente de Assuntos Estratégicos da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep).

Segundo o representante da Fiep, pela limitação da atual estrada, as composições têm que trafegar com velocidade muito baixa, cerca de 15 quilômetros por hora. “Para percorrer a distância de 90 quilômetros de Curitiba a Paranaguá são necessárias seis horas”, afirma. “Com a nova estrada esse tempo de descida pode ser reduzido pela metade”, prevê.

Além da baixa velocidade, as composições têm que ser divididas na subida da serra. Uma composição que desce com 100 vagões, por exemplo, para subir tem que ser dividida em duas de 50 vagões. Os outros 50 permanecem no pátio em Paranaguá para seguir numa próxima viagem.

Outra vantagem da nova estrada, segundo Mohr, é que será possível utilizar o vagão double stack, que permite transportar um contêiner sobre o outro, dobrando o volume de carga carregado. “Atualmente, isso é inviável por conta dos túneis que o trem tem que atravessar, que são muito baixos”, diz.

“Se já tivéssemos essa nova ferrovia hoje, estaríamos transportando por ela 26 milhões de toneladas por ano, vindas da região Oeste do Paraná e do Mato Grosso do Sul. Estamos levando por essa ferrovia hoje apenas cerca de 12 milhões que vem do Norte e Noroeste do Paraná”, informa o coordenador do Plano Estadual Ferroviário, Luiz Henrique Fagundes. “O que vem do Oeste segue basicamente por rodovia pela falta de uma linha férrea completa e eficiente”, observa.

Fagundes lembra que o porto de Paranaguá está batendo recordes de movimentação e a estrutura logística para levar a carga até lá está chegando à saturação. “A ferrovia é a única solução possível. Sem o modal ferroviário, a performance do porto pode ser comprometida”, prevê. Ele observa que todos os outros portos do Brasil estão tendo suas malhas ferroviárias construídas ou melhoradas.

Rumo avalia “com atenção” oportunidades de novo traçado

A malha ferroviária Sul no Paraná é operada pela Rumo Logística, que tem contrato de concessão até 2027. A empresa informa que desde que assumiu a concessão, em 2015, vem realizando melhorias. No trecho entre Curitiba e Paranaguá, a empresa investiu mais de R$ 120 milhões na correção de traçado feitos na Serra de Paranaguá. Segundo a concessionária, a capacidade anual de transporte já passou de 13 milhões para 30 milhões.

A empresa acrescenta que em fevereiro de 2020 firmou parceria com a Ferroeste passando a utilizar suas próprias locomotivas e vagões para percorrer o trecho entre Cascavel e Guarapuava (antes operado apenas pela Ferroeste), e de lá até o Porto de Paranaguá. A operação integrada movimentou 1,38 milhão de toneladas de produtos em 2020, com um crescimento de 50% no volume de grãos em relação ao ano anterior.

Em relação à concessão da Nova Ferroeste, a Rumo informa que “sempre avalia com toda a atenção as oportunidades que surgem em sua área de atuação”.

A Nova Ferroeste terá 1.285 quilômetros de extensão total e o investimento estimado é de R$ 25 bilhões, recursos que virão totalmente do setor privado. Não se tem ainda o valor específico do trecho Curitiba-Paranaguá. “O custo pode ser considerado alto, mas o custo de não se fazer essa nova ferrovia será ainda maior”, enfatiza Fagundes.

A previsão é que os estudos sejam concluídos até final desse ano, quando se chegará à proposta do traçado definitivo. A partir daí serão realizadas audiências públicas para referendar o traçado. A Nova Ferroeste deve ir a leilão na Bolsa de Valores do Brasil, a B3, no primeiro semestre de 2022 para uma concessão por 60 anos. A estrada deve começar a ser construída no segundo semestre do mesmo ano, com previsão de conclusão em 2029. Atualmente, de toda a extensão, o único trecho pronto é o que liga Cascavel a Guarapuava.

Via: Tribuna Do Paraná