Menina surda desenvolve a fala após implante: ‘Cada novo som é uma festa’, diz mãe

10/11/2017 às 08:23.

‘Ela ficou encantada quando ouviu o barulho do próprio xixi’, conta a mãe de Júlia, de 3 anos, que passou por procedimento em Bauru. Centrinho é referência na reabilitação de surdos; inclusão deles ganhou repercussão como tema da redação do Enem.

Com implante coclear, a pequena Júlia pode desenvolver a audição e, por consequência, a fala (Foto: Kátia Fugiwara de Oliveira/Arquivo pessoal )

Com implante coclear, a pequena Júlia pode desenvolver a audição e, por consequência, a fala (Foto: Kátia Fugiwara de Oliveira/Arquivo pessoal )

Nesta sexta-feira (10) é comemorado o Dia de Prevenção e Combate à Surdez. A data reforça a importância das formas de reabilitação das pessoas que nasceram surdas ou perderam a audição por algum motivo.

Em Bauru (SP), o Hospital de Reabilitação de Anomalias Crânio-faciais da USP, conhecido como Centrinho, desenvolve um trabalho que é referência na reabilitação dos surdos por meio de implantes, dando possibilidade dessas pessoas desenvolverem a audição. Foi um desses implantes que mudou a vida da pequena Júlia Bezerra, de apenas 3 anos.

Com implante coclear bilateral, a menina ouve normalmente e está desenvolvendo a fala. Para isso ela é acompanhada diariamente pela equipe multidisciplinar do Serviço de Educação e Terapia Ocupacional do Centrinho.

Com implante feito em hospital de Bauru, menina surda começa a ouvir e desenvolve a fala

Com implante feito em hospital de Bauru, menina surda começa a ouvir e desenvolve a fala

A bióloga e mãe da Júlia, Claudeany Bezerra Pereira, conta que a menina nasceu prematura e ficou 11 dias na UTI. Exames apontaram que a bebê tinha uma cardiopatia chamada de Comunicação Interatrial (CIA), conhecida como sopro no coração, que causa uma espécie de buraco no órgão onde os sangues venoso e arterial se misturam, provocando aumento no fluxo de sangue que vai para o pulmão.

“Nós ficamos focados nesse problema e não fizemos os testes como o da orelhinha, do olhinho. Só quando a Júlia tinha um ano que nós percebemos que havia algo errado. Ela falava muito pouco, umas três palavras como ‘mamãe, papai e não’, além de gesticular muito. A gente via que ela se esforçava e não conseguia falar”, conta Claudeany.

Depois de vários exames, Júlia foi diagnosticada com perda auditiva severa nos dois ouvidos e a família, que é do Pará, iniciou uma peregrinação em busca de tratamento. Eles descobriram que a esperança da menina ouvir estava no implante coclear, conhecido como ouvido biônico, no qual o Centrinho é pioneiro.

Após a viagem de quase 3 mil quilômetros, a Júlia fez o primeiro implante coclear com 2 anos. A equipe de reportagem da TV TEM acompanhou a ativação do implante no ano passado, que permitiu que ela ouvisse a voz da mãe pela primeira vez. E a partir daí cada som foi uma nova descoberta, segundo a mãe.

“É engraçado, mas o som que eu acho que foi marcante para ela foi ouvir o xixi dela. Ela ficou encantada com o barulho, ela sabia o que era fazer xixi, mas ela nunca tinha ouvido o barulho. Então ela ficou me chamando e apontando a orelha, como se tivesse falando ‘você está ouvindo mamãe, o barulho que eu faço’”, lembra Claudeany.

O som da chuva também foi um dos que despertaram a emoção na mãe pela reação da menina. “A gente mostrava a chuva para ela, colocava a mãozinha dela para ela sentir, mas ela não conseguia ouvir o barulho. O dia que ela ouviu a chuva foi muito emocionante, ela ficou no jardim de inverno observando e me chamando para ouvir também.”

Júlia fez a cirurgia do implante com 2 anos no Centrinho de Bauru (Foto: Claudeany Bezerra Pereira / Arquivo pessoal )

Júlia fez a cirurgia do implante com 2 anos no Centrinho de Bauru (Foto: Claudeany Bezerra Pereira / Arquivo pessoal )

Ouvido eletrônico

O implante coclear é um dispositivo auditivo eletrônico e é inserido por meio de uma cirurgia, dentro de uma parte interna do ouvido, que recebe o nome cóclea, e exerce a função das células possibilitando a percepção dos sons pelo paciente.

“Quando o paciente tem uma perda profunda na audição, o aparelho convencional não é suficiente para dar aquisição de linguagem por isso a reabilitação é com implante coclear, no qual nós somos pioneiros. Para as crianças que nascem surdas ou com perda profunda é importante que façam o implante coclear até os 2, 3 anos”, explica Luiz Fernando Lourençone, médico do Centrinho.

“O trabalho visa à reabilitação da criança depois do implante, porque não basta só colocar o implante e ir para casa, a criança precisa do acompanhamento dessa equipe multidisciplinar para aprender a ouvir e identificar cada som novo. E tudo isso precisa estar integrado com a família e também a escola, e nesse aspecto que a gente procura contribuir”, explica a chefe do serviço, Márcia Fernandes Morais.

E assim, cada novo som identificado pela Júlia é uma vitória. “Não é tanto o primeiro som que ela ouviu, mas as coisas do dia a dia, cada novo som é um motivo de festa, parece uma coisa simples para gente que sempre ouvir, mas para a Júlia e para mim como mãe não é”, diz Claudeany.

Júlia é acompanhada pela equipe multidisciplinar do Serviço de Educação eTerapia Ocupacional (Foto: Tiago de Moraes/G1 )

Júlia é acompanhada pela equipe multidisciplinar do Serviço de Educação eTerapia Ocupacional (Foto: Tiago de Moraes/G1 )

Ajudando a ouvir

O Centrinho realiza por mês cerca de 400 adaptações de aparelhos de amplificação sonora individual, que são aqueles aparelhos mais comuns para perdas auditivas leves e moderadas. De implantes cocleares como o da Júlia, implantados de forma cirúrgica, são de 8 a 10 mensais. Além das próteses ancoradas no osso, para aqueles pacientes que têm alguma mal formação na orelha, sendo feito dois implantes como esse por mês em média.

A auxiliar de escritório Itamara Caroline da Silva passou por esse procedimento no Centrinho no ano passado. A jovem de 26 anos nasceu com a síndrome de Treacher Collins que causa mal formação na face, afetando a audição, a fala e a respiração. Por causa da síndrome, Itamara não tem as orelhas e antes da prótese, utilizava um aparelho de amplificação sonora que permitiu que ela conseguisse identificar os sons ao redor dela.

“Eu costumo dizer que eu comecei a viver de verdade com 20 anos, porque foi quando eu ganhei o aparelho auditivo. Lembro até hoje do dia que ele foi ativado veio aquela explosão de sons e no meio de tudo isso eu consegui identificar o som de um passarinho, foi muito emocionante, me senti livre”, lembra.

Via: G1