Mãe relata maus-tratos sofridos pelo filho com síndrome rara em escola municipal

06/03/2020 às 08:28.

Guilherme, 7 anos, quebrou o braço após sofrer uma queda na escola. A mãe não foi comunicada (Foto: Arquivo Pessoal)

Logo no primeiro ultrassom, a engenheira de alimentos Fabiana Trigo, 38 anos, descobriu que o bebê que estava esperando teria alguma deficiência.

Quando Guilherme Lins Nogueira, 7 anos, nasceu, os médicos investigaram o caso até fecharem o diagnóstico: Síndrome de Jacobsen. Trata-se de uma doença genética rara que afeta o desenvolvimento neuropsicomotor. Além disso, Guilherme apresenta surdez bilateral.

“Após 34 dias na UTI, ele já saiu de lá com encaminhamentos para vários tipos de terapias e acompanhamentos em diversas especialidades médicas. Quando ele completou seis meses, passamos a frequentar a Associação de Assistência à Criança Deficiente, a AACD. Durante três anos, Guilherme foi acompanhado por uma equipe multidisciplinar e evoluiu muito”, conta Fabiana.

Quando Guilherme passou a ficar em pé, por volta dos 3 anos, Fabiana começou uma busca por escolas. Aos seis anos, ele começou a dar os primeiros passos e ela o matriculou na Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos Anne Sullivan, no bairro Chácara Santo Antônio, na zona sul de São Paulo.

Por ser uma criança com múltiplas deficiências, Guilherme precisa do acompanhamento de uma auxiliar de vida escolar, as AVE, como são chamadas. Fabiana passou a fazer parte do conselho de pais e mestres da escola e a frequentar as aulas de libras oferecidas aos pais pela Secretaria Municipal de Educação.

“Semanalmente, eu ia até à escola para ter aulas de libras e via algumas coisas que não estavam certas. Na sala do Guilherme, por exemplo, não havia cadeiras ou mesas. Apenas um tatame. Certo dia, vi as crianças brincando com caixas de papelão. Questionei se não havia outro tipo de incentivo, e fui informada que não havia verba. Para ajudar, decidir ir à Secretaria Municipal de Educação e protocolei uma reclamação sobre as condições da escola. Pouco tempo depois, a diretora me chamou para mostrar alguns brinquedos pedagógicos que havia comprado. Ela também prometeu comprar mesas para as crianças e fazer um parquinho, o que nunca aconteceu”, diz Fabiana.

Fabiana conta que Guilherme passou a chegar em casa com hematomas, mas achou normal por estar em um ambiente escolar com outras crianças. Na mesma época, enquanto estava no curso de libras, ela viu uma criança com múltiplas deficiências, assim como seu filho, andando sozinha pelos corredores. Como a professora não respondia aos seus questionamentos feitos por meio da agenda, ela decidiu tirar o filho da escola no segundo semestre de 2018.

No início de 2019, a diretora ligou para Fabiana e propôs que ela levasse Guilherme novamente às aulas, já que a professora havia sido trocada e ele seria tratado de acordo com as expectativas de Fabiana.

“Eu fiquei feliz e ele voltou a frequentar as aulas.  Um dia, eu vi meu filho isolado da turma em um canto, sozinho vendo um livro. Questionei a diretora sobre a conduta e ela me disse que a professora havia faltado e uma substituta estava cuidando das crianças”, conta Fabiana.

As férias de julho chegaram. Guilherme ficou em casa durante todo o mês. Voltou para a escola sem hematomas, mas logo na primeira semana, apareceu uma marca roxa de dedo no braço. Fabiana procurou a coordenadora pedagógica, sem sucesso. Até que no dia 1 de agosto, ele chegou em casa com uma expressão de sofrimento. Fabiana percebeu que o filho havia chorado. Rapidamente deu o jantar para ele e foi dar um banho no menino.

“Procurei hematomas ou qualquer sinal que pudesse explicar a expressão de dor do meu filho quando levantei o seu braço e vi uma mancha roxa já esverdeada. Alertei a escola sobre o ocorrido e levei meu filho às pressas para o hospital”, fala Fabiana.

Guilherme havia sofrido um trauma no braço que resultou no descolamento do osso do crescimento do braço. Os médicos pediram uma avaliação do chefe da equipe e chegaram a cogitar que ele fosse operado. Resultado: Guilherme ficou engessado por cinco semanas e afastado da escola por dois meses.

Indignada, Fabiana procurou a escola. Pediu para ver as imagens das câmeras de segurança. Na gravação, segundo ela, Guilherme aparece saindo sozinho da sala. Ele encontra uma coleguinha, que o puxa pelo pátio a contragosto. Ele recebe algo para comer de uma auxiliar e senta sozinho em um banco. Fica por lá durante mais de dez minutos. Absolutamente sozinho. O intervalo está quase chegando ao fim, as crianças continuam brincando no pátio e Guilherme continua só. Até que ele consegue sair do banco onde foi deixado e segue segurando pela parede. O momento da queda não foi registrado.

“É possível ver os funcionários correndo para pegar papel provavelmente para limpar o nariz do Guilherme. Meu filho devia estar chorando muito. Justo neste dia meu filho estava sob os cuidados da professora substituta”, relata Fabiana.

Acontece que após o acidente, Fabiana não foi comunicada. “Não sei por quanto tempo meu filho sofreu com a dor porque a escola simplesmente não me disse nada. Se ele caiu por volta das 16h, chegou em casa com a perua escolar às 19h30, recebeu analgésicos e foi engessado só às 23h, depois dos exames concluídos, são sete horas de sofrimento. Ele não fala, e não sabe contar nem por meio de gestos o que aconteceu, não possui autodefesa”, diz ela.

Fabiana procurou o Ministério Público, abriu um inquérito da Secretaria Municipal de Educação, foi até a Diretoria Regional de Educação, fez exame de corpo delito. Nada surtiu efeito.

“Para não dizer que nada foi feito, as mesas e cadeiras do tamanho adequado para as crianças, foram compradas e colocadas no refeitório, assim como um banheiro infantil foi construído. Estranhamente, a diretora passou a se ausentar alegando problemas de saúde. As reuniões da associação de pais e mestres não aconteceram nas datas certas, ela fechou o sem prestar contas e nunca nos deu as cópias das atas”, conta Fabiana.

Recentemente, Guilherme chegou em casa com o rosto marcado por uma mordida (Foto: Arquivo Pessoal)

Guilherme voltou a frequentar as aulas em novembro do ano passado. Tudo ia bem até fevereiro deste ano. Ele chegou em casa com a bochecha roxa e a marca de uma mordida. Novamente, Fabiana procurou a escola sem sucesso. Desde então, ele não está mais frequentando as aulas.

CRESCER ligou na Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos Anne Sullivan. Os funcionários disseram que não podem dar entrevistas sem autorização e indicaram que a reportagem procurasse a Secretaria Municipal de Educação (SME), que enviou a seguinte resposta:

A Diretoria Regional de Educação Santo Amaro esclarece que o aluno Guilherme se chocou com um colega na hora do recreio no dia 01 de agosto do ano passado. Informa que o mesmo foi atendido e passou o dia bem. No dia seguinte do ocorrido, a mãe entregou para a escola um atestado afastando a criança por quatro meses por fratura no braço. Um mês depois a criança retorna a escola com alta médica. Em relação à marca na bochecha do aluno, a Gestão da EMEBS Anne Sullivan afirma que apurou o fato e através de processo administrativo, que apontou uma versão diferente do ocorrido. Sobre a prestação de contas, informa que é realizada conforme disposto na legislação vigente, sem apresentação de irregularidades. Informa também que contratou um instrutor para as aulas de Libras conforme legislação vigente que está atuando a escola desde ontem (04). A Secretaria Municipal de Educação repudia qualquer ato de violência e acompanha as atividades desenvolvidas na EMEBS Anne Sullivan por meio da supervisão de ensino.

Via: Revista Crescer