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Mãe deu à luz durante apagão de três horas em hospital

03/05/2019 às 08:52.

Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Foram 283 dias, pouco mais de nove meses, sonhando em ver o rostinho do primeiro filho. O que só foi possível graças à lanterna de um celular. A dona de casa Raiane do Nascimento Galvão Clementino, de 25 anos, deu à luz Murilo no escuro, durante um apagão que afetou o atendimento no Hospital municipal Albert Schweitzer, em Realengo, por mais de três horas, na noite do último domingo.

Único registro do nascimento do filho feito por Ramon: ele planejava filmar o parto, mas usou o celular para iluminar a sala

Único registro do nascimento do filho feito por Ramon: ele planejava filmar o parto, mas usou o celular para iluminar a sala Foto: Álbum de família

Eram 21h53m e a ventania que atingiu a cidade no fim da tarde ainda era muito forte quando Murilo veio ao mundo, na sala de pré-parto, iluminado pelas lanternas dos celulares do pai e da equipe médica. Só com a ajuda de outros aparelhos que substituíram o dele, no momento exato em que o bebê nascia, o militar Ramon Clementino, de 25 anos, pode apagar sua lanterna por alguns segundos e fazer o único registro do nascimento do filho.

O hospital completava uma hora e 40 minutos no escuro. O gerador só funcionou por 17 minutos, segundo funcionários. A angústia aumentou quando, em meia hora, acabou a carga das baterias portáteis dos aparelhos de ventilação mecânica.

Raiane, agora aliviada, conta que houve muita tensão porque, em caso de complicação, não haveria recursos para socorrê-la:

— Não desejo isso a ninguém. Eu tinha contrações há três dias e estava na sala de pré-parto, desde às 8h, já sem forças. Senti medo, tudo precisava dar certo. Eu não podia ir para uma cesariana nem meu bebê para a incubadora. Não havia energia para nada. Graças a Deus, tudo deu certo.

A equipe médica fez o parto normal de Raiane no escuro, com a lanterna de celularesA equipe médica fez o parto normal de Raiane no escuro, com a lanterna de celulares Foto: Reprodução

Vacina às escuras

E, para aumentar o desespero, ela presenciou todo o corre-corre para salvar vidas.

— Os enfermeiros pediam o apoio de todas as equipes no CTI, mas eu não queria ficar sozinha. Pedi às duas enfermeiras que estavam comigo que não me deixassem. Elas não saíram do meu lado. Eu suava muito. Sem ar-condicionado, a sala ficou quente e abafada — relembra.

Enquanto o pai chorava de emoção, a mãe só conseguia agradecer ao ter o filho junto ao peito. Mas aquela fração de segundo tão esperada foi de alta ansiedade:

— Eu disse para o meu marido: ‘Não consigo ver o rostinho dele!’. Então, uma das enfermeiras que ajudavam o médico a me suturar jogou a luz do celular dela no rostinho do Murilo — conta. — Ele é lindo!

A enfermeira pesou e aplicou a vacina no bebê às escuras. Com a volta da luz, às 23h, mais exames foram feitos, e o recém-nascido foi limpo e vestido.

— Só voltamos para a enfermaria por volta de 1h — conta Ramon, que ainda não sabe se vai mover uma ação pelo susto da família.

Sete horas após a volta da energia, um paciente que estava intubado no CTI e precisou ter o pulmão ventilado manualmente morreu.

A Secretaria municipal de Saúde afirmou que “em nenhum momento, qualquer aparelho da UTI deixou de funcionar” e que não houve óbitos relacionados à falta de luz. Em nota, disse também que o gerador foi acionado, atuou durante uma hora, mas parou quando entrou água de chuva nos tanques de diesel do equipamento. O hospital alugou dois geradores, que foram instalados na noite de segunda-feira.

A Light, por sua vez, informou que a queda de árvores na rede afetou o fornecimento e afirmou que “é importante esclarecer que todos os hospitais devem possuir um gerador para garantir fornecimento ininterrupto de energia, mesmo quando houver ocorrências na rede da distribuidora”.

Via: Jornal Extra