Jovem que acusa padrasto de tortura diz que tem medo e relembra drama: ‘Chegava a ser estuprada 2 vezes ao dia’

22/02/2019 às 08:18.

“Foram nove anos sendo abusada praticamente todos os dias. Era algo cotidiano, coisa rotineira. Perdi as contas de quantas vezes fui vítima. Tinha vez que chegava a ser estuprada duas vezes no dia”. O relato é da estudante de Direito Eva Luana da Silva, de 21 anos, que usou as redes sociais para relatar que ela e a mãe foram constantemente violentadas e torturadas durante anos pelo padrasto.

A jovem conversou com o G1, nesta quinta-feira (21), e falou que ainda se sente com medo mesmo após prisão de padrasto Thiago Oliveira Alves, na semana passada, após ela ter procurado a Polícia Civil para denunciar o caso. É que as lembranças dos momentos de terror que viveu por mais de oito anos ainda as deixa inquieta.

“Não tenho como dizer o que foi mais terrível, porque tudo foi muito ruim. No entanto, os abusos e os estupros foram mais fortes. As torturas que sofri mexeram muito comigo, com o meu psicológico. Em determinadas ocasiões, passava um dia inteiro sendo torturada”, destacou.

Como resultado dos estupros cometidos pelo padrasto desde que ela tinha 12 anos, a jovem disse que fez vários abortos. “Foram quatro ou cinco vezes”, lembra.

Eva Luana da Silva, de 21 anos, denunciou o padrasto por abusos e torturas na Bahia — Foto: Juliana Cavalcante/TV Bahia

Eva Luana da Silva, de 21 anos, denunciou o padrasto por abusos e torturas na Bahia — Foto: Juliana Cavalcante/TV Bahia

Eva levou o caso a público na quarta (20), após relatar em cinco posts no Instagram toda a violência pela qual foi submetida dentro da própria casa, e que teve início quando ela tinha 12 anos. Ela conta que a mãe era constantemente vítima do companheiro e que, depois, passou a ser alvo dele também.

A delegada Florisbela Rodrigues, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Camaçari, que apura o crime, confirmou que a jovem prestou depoimento no dia 30 de janeiro. A mãe dela também falou com a polícia e confirmou as denúncias da filha. O G1busca contato com a defesa do suspeito, entretanto ainda não obteve sucesso.

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{1} respira ♡ / a todos que me ajudaram até aqui,  seja no "desaparecimento" ou agora,  com os fatos verdadeiros, a minha eterna gratidão.  Aos meus amigos de infância, que eu fui obrigada a abandonar um por um, preciso pedir perdão.  Não vou citar nomes, mas quem está firme comigo sabe, eu vou retribuir com todo o meu amor e relembrar até a minha velhice. / Meu caos teve início quando eu tinha 12 anos, minha mãe era agredida,abusada,violada e torturada quase todos os dias. Meu padrasto era obsessivo e ciumento com ela. Resumindo de uma maneira geral, ela era agredida com chutes, joelhadas, objetos.. Era abusada sexualmente de todas as formas possíveis.  Era obrigada a tomar bebidas até vomitar e quando vomitava tinha que tomar o próprio vômito como castigo. Ele começou a me abusar sexualmente.  Eu tinha nojo, repulsa, ódio e não entendia porque aquilo acontecia comigo.  Me sentia uma criança estranha e diferente das outras. Achava que aquilo só acontecia comigo. Eu tentei por diversas vezes ir para a casa da minha avó, mas ele sempre ligava ameaçando todos, dizendo que iria matar e fazer várias coisas assim. Então era uma prisão sem grade, literalmente. Quando eu fiz 13 anos denunciei. Nessa denúncia eu tinha certeza que seria salva por todos.  Mas não foi isso que aconteceu.  O Estado falhou a tal ponto que o meu caso não chegou nem ao Ministério público.  Fui obrigada a retirar a queixa por ameaças do meu padrasto.  Ele utilizou o poder financeiro pra comprar a liberdade e comprar a minha alma. Porque ali eu perdi a minha alma. E o que eu fui denunciar,  1 ano de sofrimento, se multiplicou em mais 8 anos. Desde então os abusos, torturas e todo tipo de agressão foram aumentando dia após dia, ano após ano. Eu não tive mais vida social. Tudo era uma farsa. Ele nos obrigava a fingir que tínhamos uma família perfeita.  As agressões eram verbais, físicas e psicológicas.  Entre elas  comer muito, em tempo estipulado, isso aconteceu com uma pizza família,  pra comer inteira em 10 minutos.  Óbvio que não conseguimos.Tb tomar 2 litros de refrigerante nesses 10 minutos.. eu levei socos no rosto e ele não me deixava me proteger com a mão. Chutes até cair no chão

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O homem está preso desde quarta-feira (13), na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Camaçari, onde a jovem fez a denúncia, no dia 30 de janeiro. Natural de São Paulo, o suspeito atuava como assessor técnico da Secretaria Municipal de Habitação de Camaçari mas foi exonerado no dia 1º de fevereiro.

Eva conta que não teve mais contato com o padrasto, porque saiu de casa com a mãe por medo, mas diz que ficou sabendo que ele estava as procurando.

“Depois da denúncia, não recebi nenhuma ameaça direta dele, até porque também saí de casa com a minha mãe e ficamos sob a proteção da Justiça e de amigos. Só que pessoas me disseram que ele estava me procurando e tentando me rastrear. Meu namorado, que me ajudou a criar coragem para denunciar o caso, recebeu algumas ameaças e, até que ele fosse preso, foi para o interior por segurança”, destacou.

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{2} (…) e de 4 ele enfiou as pizzas na minha boca me chamando de animal, eu vomitei e comi meu próprio vômito.  Meu gato comeu um pedaço e lambeu outro, ele me obrigou a comer o que ele havia lambido. Eu apanhei a noite toda e no outro dia eu tinha que fingir que nada havia acontecido. Eu era obrigada a fazer todos os trabalhos da faculdade dele e se eu não fizesse perfeito eu pagava o preço.  Eu também respondia todas as provas da faculdade,  era obrigada a sair mais cedo da minha aula pra responder às provas dele pelo celular. Existiam castigos e punições pra tudo. Até mesmo se eu não pagasse uma conta no banco que estava super lotado, mesmo tendo horários no trabalho ou estágio. Meu celular era vistoriado todos os dias a noite. Ele desinstalava o whatsapp e reinstalava novamente pra poder recuperar as conversas apagadas.  Eu não podia namorar. Eu não podia sair com meus amigos, não tinha vínculo social com ninguém. Todos os vínculos eram vigiados e ele sempre respondia pessoas como se fossem eu. Todas as minhas senhas no celular, redes sociais e Gmail eram monitoradas por ele . Me vigiava na porta da sala da faculdade.  Todos percebiam e me viam chorando. Ele me tratava mal em público. Ele me agredia nos estupros mas depois de um tempo, só utilizou das ameaças contra a minha família. Eu era usada como um lixo. Já abortei diversas vezes. Nunca pude ir ao médico pra fazer curetagem. Todas as vezes sangrava e passava mal a noite inteira. Já vi os bebês inteiros no vaso sanitário.  Eu era chamada de burra, anta, doente, demente todos os dias e era obrigada a repetir isso pra mim mesma. Quando era solicitada pelo trabalho ou convidada pra algo que eu não poderia recusar, era obrigada a mandar print pra ele me permitir ir ou não.  Minha mãe era agredida psicologicamente constantemente também,  não tinha mais voz ativa dentro de casa. Ele arrancou a alma dela também. Ele é um monstro, perdi minha infância e adolescência. Me sentia um lixo por não ter forças pra pedir ajuda e por sentir tanto medo (…)

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No dia 31 de janeiro, após Eva ter feito a denúncia, a Justiça concedeu uma medida protetiva para que Thiago não se aproximasse dela e nem da mãe e da irmã. O homem, então, foi obrigado a sair de casa e alugar uma casa para morar.

Ela conta, no entanto, que, antes de ser preso, ele descumpriu a medida que o obrigava a ficar distante das vítimas por, no mínimo, 300 metros. A jovem conta que ele foi até a casa dela e destruiu provas, antes do cumprimento de um mandado de busca e apreensão.

“Ele foi na minha casa. Quando a gente foi com a polícia lá, para pegar as provas, meu guarda-roupa estava todo revirado. Ele conseguiu desfazer todas as provas. Conseguiu quebrar a bateria do celular dele inteira. Quebrou o celular dele no meio. Quebrou meu guarda-roupa procurando papéis dele, documentos. As malas dele, bolsas dele.

“Com a prisão dele, é como se eu tivesse aprendendo a andar novamente. Voltei a ir a praia, a poder voltar tarde da rua, a ir em um restaurante, coisas que ele me privava de fazer”, destaca.

Eva diz que a mãe também ainda está muito abalada. “Ela está comigo sob proteção da Justiça e, assim como eu e todo mundo, quer que ele pague pelo que fez. Queremos justiça. Nunca vou esquecer as cenas que eu vi e as dores que eu senti”, destacou.

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{3} Minha irmã não tinha amor de um pai. Ela morria de medo dele pois sempre viu ele fazendo essas atrocidades conosco. Ele foi um pai macabro pra ela. Não tínhamos liberdade, respeito e cuidado.  Nosso dinheiro era entregue pra ele sempre.  Não tínhamos autoridade pra poder comprar ou utilizar como queríamos.  Tapas inesperados, gritaria e agressões eram constantes a qualquer momento. Minha mãe apanhou tanto que teve um parto prematuro, meu irmão morreu depois de 6 dias de nascido. Quando ela estava grávida dele levou diversos chutes e joelhadas na barriga.  Ele não queria mais um filho.  Ela pulou um muro pra se salvar, mais de 2 metros de muro com as unhas. Eu passei em várias faculdades mas só pude ficar onde ele autorizou. Eu era vigiada. Meu aniversário foi comemorado no meu estágio e eu não pude estar presente. Dormia sempre na casinha da minha cachorra, local sujo e úmido sem ventilação ou janelas. Lá não tinha luz. Passei várias horas sem comer. Era obrigada a passar a madrugada inteira em pé , durante horas e horas, até amanhecer o dia. Já dormi na rodoviária várias vezes. Obrigada a ir e voltar da faculdade andando. Cruzava a cidade inteira tarde da noite com medo, fome e as vezes na chuva. Quando chegava em casa não podia sentar e tudo iniciava novamente.  Eu já sai pelada na rua de madrugada e ele dizia que era para eu ser estuprada por homens. Ele tirava fotos minhas com o meu celular e enviava pra ele mesmo, pra fingir que era eu, criava conversas nojentas com ele mesmo. Meu celular era monitorado sempre. Eu perdi os amigos e a confiança na justiça.  Minha família era proibida de se aproximar então todos achavam que eu e minha mãe não queríamos contato. Mas na verdade éramos proibidas por ele em tudo que fazíamos.  Eu sinto ânsia,  repulsa e pavor da presença dele. Eu tive tanto medo de morrer, de perder a minha irmã ou minha mãe.  Ele é um monstro obsessivo e possessivo. Nossos gritos foram calados e tem muito mais pra contar que não daria pra escrever aqui. Eu tentei gravar um vídeo,  mas pra mim foi muito mais pesado essa gravação .

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Eva, que já tinha prestado uma queixa contra o padrasto quando tinha 13 anos e que foi obrigada a retirar por conta de ameaças do suspeito, diz que ainda confia na Justiça. “Acredito totalmente e creio que ele pagará por tudo. Também tenho orgulho das pessoas que estão comigo, me ajudando”, diz.

A advogada de Eva, Maria Cristina Carneiro, que já foi sua professora, diz que a defesa está fazendo recolhimento da provas e ouvindo testemunhas para reforçar as denúncias de Eva. “Ele ficou acompanhando o inquérito e teve notícia de que haveria uma busca e apreensão na casa onde morava com a família. Foi lá antes e destruiu provas, quebrou celular, chip. Inclusive, ele trocou o segredo da fechadura”, destacou.

Abusos e torturas

Após a tentativa frustrada de levar o padrasto para a cadeia, quando tinha 13 anos, a jovem disse que os abusos, torturas e agressões aumentaram. O pai biológico não conviveu com ela e a mãe — Eva diz que só o conheceu quando tinha 14 anos.

“O Estado falhou a tal ponto, que o meu caso não chegou nem ao Ministério Público. Fui obrigada a retirar a queixa por ameaças do meu padrasto. Ele utilizou o poder financeiro pra comprar a liberdade e comprar a minha alma. Porque ali eu perdi a minha alma. E o que eu fui denunciar, 1 ano de sofrimento, se multiplicou em mais 8 anos”, relatou.

“As agressões eram verbais, físicas e psicológicas. Entre elas comer muito, em tempo estipulado. Isso aconteceu com uma pizza família, pra comer inteira em 10 minutos. Óbvio que não conseguimos. Também tomar 2 litros de refrigerante nesses 10 minutos. Eu levei socos no rosto, e ele não me deixava me proteger com a mão”.

“Chutes até cair no chão e, de quatro, ele enfiou as pizzas na minha boca, me chamando de animal. Eu vomitei e comi meu próprio vômito. Meu gato comeu um pedaço e lambeu outro, ele me obrigou a comer o que ele havia lambido”, destacou.

A jovem ainda relatou que era obrigada a fazer trabalhos de faculdade para o padrasto e que era torturada caso se negasse. Ela também disse que A jovem conta que tinha o celular vistoriado todos os dias e que era proibida de sair com amigos e de namorar.

A jovem ainda relata nos posts que decidiu novamente denunciar o padrasto e pedir ajuda, agora, porque “ou ele mataria ou eu me mataria”.

“Tentei me suicidar várias vezes com cortes e remédios. Eu contei a verdade pois não aguentava mais”.

“Ele me agredia nos estupros, mas depois de um tempo, só utilizou das ameaças contra a minha família. Eu era usada como um lixo. Já abortei diversas vezes. Nunca pude ir ao médico pra fazer curetagem. Todas as vezes sangrava e passava mal a noite inteira. Já vi os bebês inteiros no vaso sanitário. Eu era chamada de burra, anta, doente, demente todos os dias, e era obrigada a repetir isso pra mim mesma”, relata a jovem.

“Ele é um monstro. Perdi minha infância e adolescência. Me sentia um lixo por não ter forças pra pedir ajuda e por sentir tanto medo”, afirmou.

m nota, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) informou que ofereceu denúncia contra o suspeito no dia 11 de fevereiro, por todos os crimes narrados pela vítima. O MP afirmou que recebeu o inquérito da Delegacia de Atendimento à Mulher de Camaçari, no dia 7 de fevereiro, e ouviu a vítima no dia seguinte.

O Ministério Público informou também que solicitou medida de busca e apreensão de provas contra o suspeito, que cumprida no mesmo dia da prisão dele. A promotora de Justiça Anna Karina Senna, substituta na 10ª Promotoria de Justiça de Camaçari, e outras cinco promotoras de Justiça foram designadas para atuar na análise do inquérito. O processo penal está em segredo de justiça por força de lei, informou o MP-BA.

Via:  G1