Jason Padgett, o homem que se converteu em um gênio da matemática após sofrer um golpe na cabeça

16/01/2019 às 17:13. Comente esta notícia!

 

Foi literalmente um golpe que fez Jason Padgett deixar de ser um jovem americano festeiro para se tornar um matemático obsessivo e ser reconhecido como um gênio na matéria — com uma habilidade pouco usual: ele pode “ver” números e geometria, não são meras abstrações.

“Eu levava uma vida muito superficial. Só me interessavam as garotas, as festas e o álcool”, contou Padgett ao programa Outlook, do serviço mundial da BBC, como parte da série especial “Sentidos extraordinários”.

“Fiquei para trás no anos 80… Seguia usando o corte de cabelo curto na parte de cima e grande atrás; também vestia casacos de couro sem camisa”, lembra, envergonhado, da sua juventude no Alasca.

“Minha vida consistia em sair para bares em busca de garotas, beber, ir ao trabalho no dia seguinte com ressaca… Eu fazia isso de seis a sete noites por semana”.

“Aquele estereótipo do idiota que você vê entrando em um bar… Este era eu”, diz, rindo.

Mas esta vida de “cabeça oca” terminou repentinamente na sexta-feira de 13 de setembro de 2002, na cidade americana de Tacoma, no Estado de Washington — para onde Padgett tinha se mudado havia pouco tempo.

Como foi o ataque

Naquela noite, ele foi com uma amiga e um sujeito com quem ela saía para um karaokê. O grupo se divertiu. Padgett, fiel aos anos 80, cantou Blaze of Glory, de Bon Jovi, artista que ele adorava imitar.

Enquanto estava no palco, viu dois homens sentados no canto, mas não deu maior importância a isso. Ele não podia imaginar que aqueles desconhecidos mudariam sua vida para sempre.

Quando ele e os companheiros de noite saíram do karaokê, Padgett sentiu e ouviu um forte e repentino golpe na cabeça, fazendo com que caísse de joelhos.

“Vi uma luz branca, como se alguém tivesse tirado uma foto”, lembra.

Conforme os agressores continuavam agindo, sua amiga observava a cena em choque; seu par saiu correndo; e as pessoas dentro do karaokê observavam a cena pela janela, mas não faziam nada. Já Padgett tentava reagir mordendo a perna de um dos atacantes.

 “A coisa que mais me lembro é de pensar: ‘Quero machucar esses caras antes de morrer'”.

“De repente, um deles me disse: ‘Passa sua jaqueta’. Assim, percebi que era um assalto”, conta.

Padgett, então, cumpriu a ordem dos agressores e passou a jaqueta – que havia custado apenas US$ 99 e ficou danificada depois do ocorrido.

Os atacantes saíram correndo, e Padgett teve a sorte de estar perto de um hospital. Ali, foi diagnosticado com uma concussão e sangramento no rim. Depois de ser tratado com uma injeção de analgésico, ele foi para casa.

TOC

O violento episódio do qual foi vítima deixou como consequência um transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

O medo do que aconteceu, e o fato de que ninguém o ajudou, levaram Padgett a ter medo de sair e estar perto de outras pessoas.

Jason Padgett — Foto: Jason Padgett/via BBCJason Padgett — Foto: Jason Padgett/via BBC

Ele passou a viver trancado em casa e desenvolveu uma obsessão pela limpeza.

“Eu tinha um medo irracional de germes, lavava minhas mãos centenas de vezes por dia”.

Ele até desinfetou seu dinheiro, limpando cada cédula, uma a uma.

O fato de estar longe da família e amigos fez com que seu distúrbio passasse despercebido: ele viveu três anos assim.

Mas o trauma na cabeça deixou outra consequência…. Mudou, literalmente, a forma como via as coisas.

“Tudo parecia ligeiramente pixelado, as nuvens, o sol… Observava a água escoar pelo ralo e via tangentes, com linhas como ondas, que se cruzavam”.

“Era lindo, mas ao mesmo tempo assustador”, lembra.

Fractais

Padgett notou que todas essas formas pixeladas pareciam se mover dentro de uma grade.

“Era como um videogame e parecia algo matemático.”

Curioso, ele foi à internet e lá aprendeu sobre a geometria fractal, uma abordagem matemática impulsionada pelo francês Benoit Mandelbrot.

Os fractais foram descritos como blocos que constroem tudo o que existe no universo.

São figuras que se repetem, para formar outras maiores.

Padgett explica da seguinte maneira: “É como uma tela de televisão… Os pequenos quadradinhos de cor formam quadrados maiores, e é assim que o todo é formado”.

De repente, ele percebeu que tudo o que via “podia ser separado em pedaços menores, mas idênticos”. Ele via padrões em tudo.

Então, sua obsessão passou a ser desenhar estas figuras fractais.

Mudança de vida

Felizmente, seu interesse em entender o que via o levou a sair do isolamento.

Padgett procurou ajuda psicológica para o TOC e se matriculou em um curso de matemática em uma universidade próxima.

A guinada não só o fez sair de casa, mas também conhecer quem mais tarde se tornaria sua esposa.

“Minha vida melhorou drasticamente”, diz.

Padgett conheceu sua futura esposa na universidade — Foto: Jason Padgett/via BBCPadgett conheceu sua futura esposa na universidade — Foto: Jason Padgett/via BBC

Outro episódio marcante foi quando Padgett viu na televisão uma entrevista com Daniel Tammet, um homem que tem Asperger (um transtorno do espectro do autismo) e é considerado um gênio da matemática e linguística. Pessoas como ele, com competências mentais extraordinárias, são chamadas de “savants”.

“Foi a primeira vez que alguém, além de mim, falou sobre como os números se parecem”, diz Padgett.

Ele decidiu então procurar um especialista para saber se ele também tinha a chamada síndrome do sábio – ou savant.

Uma série de ressonâncias cerebrais confirmou isso. Ele também foi diagnosticado com sinestesia, como é conhecido o distúrbio em que os sentidos são misturados.

Isso explicou como ele poderia “ver” a matemática.

Para Padgett, o diagnóstico foi um alívio.

Virada inesperada

Padgett viajou o mundo contando sua história e escreveu um livro sobre suas experiências: Struck by genius (Algo como “Golpeado pela genialidade”).

Sua fama teve uma consequência inesperada: um dos homens que o atacou — a quem Padgett jurou vingança por muitos anos — entrou em contato e demonstrou grande pesar pelo ocorrido, que atribuiu ao álcool e às drogas.

O agressor disse que, como Padgett, também havia começado um nova estágio na vida, livre de violência.

Padgett aceitou o pedido de desculpas e o parabenizou por ter mudado de vida.

Embora o ataque tenha causado anos de dor e problemas, Padgett está satisfeito.

“Passaria pela mesma coisa novamente para alcançar este despertar matemático. É mágico”.

Fonte:  G1