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Gravada até por Bob Esponja, ‘Tchê Tchê Rere’ rendeu mais de R$ 5 milhões ao compositor

11/08/2020 às 08:24.

Gusttavo Lima não é o intérprete mais famoso de “Balada (Tchê Tchê Rere)”. Ela foi gravada por Bob Esponja, na versão alemã do desenho. Difícil pensar em um elogio maior do que “Bombou tanto que tem uma versão cantada em alemão pelo Bob Esponja”.

O tal do “Tchê Tchê Rere” foi criado há 10 anos pelo então bancário baiano Cássio Sampaio. Mas foi em 2012 que virou hit europeu. Chegou ao terceiro lugar na Alemanha e ficou em primeiro na Suíça, na Holanda, na Bélgica e na Itália.

Os lucros com direitos autorais mudaram a vida de Cássio. “Eu tive a cabeça no lugar, né? Hoje eu sou empresário, tenho fábrica de cama, de produtos químicos. ‘Balada’ me deu uma condição muito boa”, explica o autor ao G1 (ouça no podcast abaixo).

Cássio diz que não pode falar de valores mensais recebidos pela autoria, porque os números variam muito. “Mas eu posso te falar que são alguns milhões que eu ganhei com ‘Balada’. Mais de R$ 5 milhões. Assim, mas não chegou a 10 ainda não, mas essa faixa, 6 milhões, alguma coisa assim.

Nesta semana, o G1 conta as histórias dos maiores hits do Brasil no exterior. E de seus compositores. Quais as músicas brasileiras que bombaram nas paradas da Europa e dos EUA?

Hoje, Cássio mora em Feira de Santana (BA), tem 40 anos, é casado e tem um filho de 8 anos e uma filha de 9. Ele ainda compõe xotes e forrós, mas se dedica mais às empresas que tem. Ele conta que ainda cai dinheiro de “Balada” na conta:

“Rapaz, de vez em quando cai, viu? Acontecem umas surpresas boas, né? Eu quando viajei, escutei em Miami… Amigos estão sempre gravando nas boates, na Ucrânia, Suíça, Holanda, aí mandam pra mim.”

Hoje, mais de 70% dos direitos recebidos vêm do exterior. “Ainda vem um direito autoral muito bom. Às vezes, mas não é como 2012, 2013, 2014, que era avassalador.”

Como nasce um hit?

Cássio Sampaio, compositor de 'Balada (Tchê Tchê Rere)', em 2012 e em 2020 — Foto: Reprodução/Instagram do artista

Cássio Sampaio, compositor de ‘Balada (Tchê Tchê Rere)’, em 2012 e em 2020 — Foto: Reprodução/Instagram do artista

“Balada” foi composta em um fim de noite de “uma das piores fases da vida” do ex-bancário. Ele morava em Salvador, em um apartamento quarto e sala, enquanto a esposa morava em Feira de Santana.

“Aí eu cheguei à noite em casa, arretado com alguma coisa. Só que minha esposa me ligou e ela me viu agoniado”. Foi quando ele pediu para desligar o telefone.

“Eu falei ‘não to afim de conversar não’. Já era umas 11h da noite. Aí ela falou ‘beijo, me liga’, falou bem rápido assim… Aí eu corri pro violão e veio uma melodia na hora e aí comecei. ‘Beijo, me liga’. Depois eu troquei ‘gata, me liga’. Aí pronto. Já veio rápido a música.”

“Mas eu não terminei, né? Você sabe que baiano é preguiçoso. Eu comecei de noite, mas fui terminar de manhã. Aí de manhã, peguei o telefone de novo e terminei a música. Foi rapidinho. Se for ver, não deve ter sido coisa de 20 minutos a música pronta.”

A equipe responsável pela carreira de Gusttavo Lima ouviu a música nas versões das bandas baianas Estakazero e Cangaia de Jegue. Depois, o Aviões do Forró também tocou a música em shows. “Balada” é mais um exemplo de música que estourou primeiro no nordeste e foi exportada para o resto do Brasil por meio de uma versão sertaneja.

‘Tchetchê re re’ na justiça

Gusttavo Lima toca 'Balada Boa' no Planeta Atlântida 2015

Gusttavo Lima toca ‘Balada Boa’ no Planeta Atlântida 2015

Nos bastidores, Cássio disse que houve “uma confusão muito grande”. Orientado pelos advogados, ele diz que não fala sobre as disputadas judiciais envolvendo autoria e gravação da música.

A disputa pela autoria de “Balada” rendeu pelo menos dois processos no Tribunal de Justiça da Bahia. Cássio entrou em acordo com a Estakazero, a primeira a gravar a música oficialmente.

A editora Leke empreendimentos queria uma parte da arrecadação da música, de 25%, alegando que teria participado da criação do arranjo. “Ave Maria, é uma música que mudou a minha vida. Se eu botasse os nomes dos outros né”, resume o compositor.

O segundo processo é uma ação por danos morais contra o Gusttavo Lima. O Cassio se sentiu lesado porque o cantor não citava em programas de TV quem era o verdadeiro autor da música.

Cássio Sampaio, compositor de 'Balada (Tchê Tchê Rere)', com os filhos em 2020 — Foto: Acervo Pessoal

Cássio Sampaio, compositor de ‘Balada (Tchê Tchê Rere)’, com os filhos em 2020 — Foto: Acervo Pessoal

Cássio não gosta de falar sobre a relação com o cantor e lamenta que conheceu Gusttavo “em uma situação ruim, na frente de um juiz, e isso não é bom pra ninguém”.

“O único elo é ‘Balada’ mesmo. Porque poderia ser diferente, mas a falta de humildade dele… Mas, enfim, não está aqui pra se defender então deixa ele lá.”

Em busca da ‘Tchetchê re re’ parte 2

Após “Balada”, Cássio mandou outras composições para artistas locais. “Aconteceram outras músicas com bandas do nordeste principalmente. O pessoal me ligava muito, um dos motivos de eu ter saído do banco foi isso. Começou o telefone a tocar sem parar, só que eu não tinha muita música.”

A busca por uma “Tchetchê re re” foi incansável. Ele tentou emplacar outras composições com arranjos e expressões parecidas.

A lista inclui tentativas de hits como “Piriripimpim”, “Tatararatata” e “Tome tome”. Mas nenhuma teve a mesma força de “Balada”. Também não rendeu tanto dinheiro.

Via: G1