Fisioterapeutas usam jogos de videogame para tratar pacientes internados

12/03/2018 às 09:28.

Games são usados para a terapia, que atende de pessoas queimadas a quem sofreu um acidente vascular. Internos se envolvem e fazem os exercícios de forma prazerosa, inclusive na UTI.

Escalada, futebol, boliche e dança são alguns dos esportes que pacientes internados no Hospital Geral de Goiânia (HGG) praticam por meio de jogos eletrônicos. Fisioterapeutas da unidade adotaram os games para ajudar na recuperação de internos que sofreram de queimaduras a acidente vascular encefálico, inclusive para os que estão na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Além disso, o videogame alivia a tensão do ambiente hospitalar.

“É surpreendente o resultado. A gente vê o ganho dos pacientes, a melhora da qualidade da assistência que a gente pode proporcionar a eles, é gratificante”, disse ao G1 a gerente do serviço de fisioterapia, Joana Angélica de França Barbosa.

Entre os “atletas” da UTI está o comerciante Valdir Nunes de Souza, de 62 anos. Ele foi internado na unidade com quadro gravíssimo por causa de uma descompensação da artéria perna. Assim que a situação do paciente se estabilizou, ele começou a terapia com videogame e afirma que está “viciado” no jogo eletrônico de boliche, esporte que, até então, desconhecia. Agora, o quadro dele é estável.

“A terapia com videogame fortalece o corpo, fortalece a mente, é muito bom”, disse o paciente.

A alegria dos jogadores contagia os demais. Além disso, os pacientes estimulam uns aos outros para que superarem suas pontuações e façam, por exemplo, um strike, que é quando se derruba todos os pinos do boliche.

Gerente do serviço de fisioterapia do HGG, Joana Angélica de França Barbosa diz que é surpreendente o resultado obtido com os jogos de videogame (Foto: Paula Resende/ G1)

Gerente do serviço de fisioterapia do HGG, Joana Angélica de França Barbosa diz que é surpreendente o resultado obtido com os jogos de videogame (Foto: Paula Resende/ G1)

A fisioterapeuta pondera que a fisioterapia com o videogame não substitui a convencional, mas a complementa. Segundo ela, a atividade é uma forma, até mesmo, de aliviar a dor dos pacientes no momento do exercício.

“Muitas vezes, quando os pacientes veem o fisioterapeuta, falta chorar porque é dolorido, mas no videogame até a postura do paciente melhora sem que perceba que está fazendo o exercício, não percebe a dor no momento porque é muito prazeroso, é lúdico, dá empoderamento ao paciente”, ressalta Joana.

Hospital Geral de Goiânia, Goiás (Foto: Paula Resende/ G1)

Hospital Geral de Goiânia, Goiás (Foto: Paula Resende/ G1)

Fisiogame

Chamada de “Mova-se com o fisiogame”, a proposta de levar os jogos eletrônicos aos pacientes da unidade surgiu há cerca de um ano, começou a ser implantada há seis meses e já atendeu a mais de 60 pacientes. O videogame detecta os movimentos dos jogadores em três dimensões e proporciona estímulos visuais, táteis, auditivos e sensoriais.

O processo de estruturação do projeto incluiu do estudo do equipamento mais adequado a como orientar as pessoas internadas. A equipe escolheu um videogame que não necessita de contato físico entre o paciente e o controle para eliminar o risco de contaminação entre os “atletas”. O aparelho também foi colocado em uma instalação móvel para que possa percorrer todas as alas do HGG sem risco de infecção.

Os jogos que envolvem uso de armas e lutas são os únicos vetados. “Eles aumentam a questão de dar hiperatividade ao paciente, levam a uma aflição. Como a gente quer propiciar um ambiente agradável, a gente escolheu jogos de esporte, de exploração da natureza e dança”, disse Joana.

Fisioterapeutas acompanham o paciente antes e depois dos jogos no Hospital Geral de Goiânia (Foto: Paula Resende/ G1)

Fisioterapeutas acompanham o paciente antes e depois dos jogos no Hospital Geral de Goiânia (Foto: Paula Resende/ G1)

Alvo

Apesar de qualquer pessoa poder jogar videogame, Joana explica que no âmbito terapêutico é necessário ter o acompanhamento de um profissional. Segundo ela, há todo um processo que deve ser feito antes e depois do jogo. Além disso, há atividades específicas para cada fase do tratamento conforme o grupo muscular do paciente que precisa ser desenvolvido.

“Não é simplesmente colocar o paciente para jogar videogame, antes disso a gente observa a estabilidade do paciente, faz alongamentos, todo um preparo da musculatura para que consiga fazer o exercício. Por isso, essa ferramenta é terapêutica, não trivial como seria o jogo em casa. Após o jogo, voltamos o paciente para o estado de repouso, com o posicionamento de maneira funcional para que não desenvolva deformidade muscular”, detalha.

Não são todos os pacientes que podem receber a terapia com uso de videogame. “É preciso que ele esteja com níveis de pressões arteriais e com frequência cardíaca adequados para que não desestabilize o quadro dele, para não oferecer risco ao paciente. Também tem de ter certo nível de percepção para que entenda o que o jogo está exigindo dele”, pondera a fisioterapeuta.

De acordo com a equipe do HGG, o alvo da fisioterapia com videogame é o tratamento de pacientes com problemas neurológicos ou com limitações motoras, mas pode ser estendida aos demais.

Um dos coordenadores da UTI do hospital, o médico Durval Ferreira Fonseca Pedrosa explica que ainda não há um estudo sobre os benefícios da fisioterapia por meio de jogos eletrônicos no quadro clínico do paciente. Mesmo assim, o médico acredita que a interação colabora para a evolução da pessoa internada.

“Influencia em todo o quadro clínico, a interatividade deixa os pacientes com condições de se recuperar mais rápido e poder sair da UTI o mais rápido possível”, disse o médico.

Via: G1