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Filho usa escada para conversar com mãe idosa sem quebrar isolamento social

04/05/2020 às 09:11.

Filho sobe em escada para falar com mãe idosa sem quebrar o isolamento social — Foto: Reprodução/TV Globo

Um homem adotou uma estratégia diferente para poder manter a comunicação com a mãe, que tem 80 anos e está no grupo de risco da pandemia do novo coronavírus. Ao sentir sintomas compatíveis com os da Covid-19, ele se afastou da família e passou a usar uma escada para se debruçar na janela de casa e conversar com a idosa, que fica no quarto, no primeiro andar, no Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife.

A preocupação de Saulo Luiz de Albuquerque aumentou desde que começou a sentir sintomas de uma gripe. Pensando que poderia ter se contaminado como novo coronavírus, ele passou a intensificar a proteção para Dona Maria Emerita de Albuquerque.

A idosa sofreu uma fratura no fêmur, também teve um acidente vascular cerebral (AVC) e perdeu a visão. Com uma saúde debilitada, é tratada pelo filho como uma “joia rara”, frágil e preciosa.

Conferente de cargas, Saulo teve que abandonar, temporariamente, alguns hábitos, como ficar com a mãe para abraçá-la. Agora, a escada se transformou no único meio para amenizar a saudade.

“Eu tive a ideia de colocar uma escada do lado de fora e ter acesso ao quarto dela, mantendo distância, para ficar conversando com ela, vendo ela. Ultimamente, só minha irmã está tendo acesso a ela, para evitar muito contato físico. Por causa disso, minha mãe também se sente muito sozinha”, afirmou.

Filho teve que abandonar hábito de ficar com a mãe para abraçá-la por causa de medo do novo coronavírus

Filho teve que abandonar hábito de ficar com a mãe para abraçá-la por causa de medo do novo coronavírus

Medo

Saulo mora no bairro Malaquias, com a mãe, filho, sobrinha e irmã, com quem divide os cuidados diários com dona Maria. Segundo ele, para além das dificuldades impostas pela pandemia, incluindo as financeiras, ficar longe da idosa é o que mais dói.

“O medo impera. Minha mãe já tem uma saúde muito frágil, devido à idade, a todas as doenças que já teve e por ser diabética. Minha maior vontade hoje seria voltar à rotina normal, penteando o cabelo dela, cortando o cabelo e as unhas, trocando a fralda dela. É o maior cuidado. A parte mais difícil, para mim, é o distanciamento. Dói muito, de verdade”, afirmou Saulo.

Saulo começou a ter sintomas gripais no fim de abril e, alguns dias depois, chegou a ir a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde, segundo ele, a médica descartou a Covid-19. Entretanto, os sintomas foram bastante semelhantes, como febre, dor no corpo, dor de cabeça e outros sintomas respiratórios.

“O distanciamento já estava acontecendo, mas até então eu estava dentro de casa. Quando tive os sintomas, fiquei totalmente isolado da residência. Estou construindo, na parte de baixo da casa, um espaço com melhor acesso para ela, porque da última vez que ela foi socorrida, até o Samu achou ruim o acesso. Estou dormindo nesse espaço por enquanto”, disse.

Com o afastamento físico de Saulo, coube à irmã dele os cuidados integrais da mãe, até porque, como a idosa é bastante dependente, costumeiramente, algum dos filhos cuida dela enquanto o outro trabalha.

“Diante da pandemia, a gente fica com receio de se aproximar e acabar ela pegando uma gripe, ou alguma outra coisa. Dizem que o filho mais novo é sempre mais apegado à mãe, e acho que é meu caso”, afirmou Saulo.

Via: G1