Fabricantes de brinquedos se livram do cor-de-rosa para atrair meninos às panelinhas

13/03/2018 às 10:36.

Na maior feira de brinquedos da América Latina, o estereótipo ‘menino x menina’ ainda impera; segundo fabricantes, facilidade de atrair meninas para os carrinhos é maior do que convencer as famílias de que os meninos podem brincar de casinha.

Motivadas pela demanda das famílias, opinião pública e tendências de mercado, as iniciativas para “apagar o gênero” dos brinquedos têm dado maior resultado na inclusão das meninas em brincadeiras historicamente atribuídas a meninos, como carrinhos e super-heróis, do que o contrário. Segundo fabricantes de brinquedos ouvidos pelo G1 na 35ª Feira Internacional de Brinquedos (Abrin), que aconteceu na semana passada em São Paulo, o maior desafio é atrair mais pais e filhos homens às brincadeiras de casinha, consideradas “coisa de menina”.

Para tentar equilibrar a expansão de todos os brinquedos para ambos os gêneros, eles apostam algumas de suas fichas em produtos unissex, caracterizados principalmente pela ausência do cor-de-rosa.

“Uma coisa que a gente sente no mercado brasileiro é que o azul está sendo aceito tanto para menino quanto para menina, mas o rosa ainda tem muita resistência com os meninos”, resumiu Samy Moas, diretor da Buba.

A fabricante, especializada em brinquedos, acessórios e artigo de decoração para bebês oferece boa parte de seus produtos em rosa e azul, incluindo o “baby phone”, um smartphone de brinquedo. Mas Moas explica que, nas linhas recém-lançadas, a empresa tentou aproveitar outras cores, como o verde e o roxo, para dar uma cara mais neutra aos itens.

Segundo ele, como precisam de cores para chamar a atenção dos pequenos, os brinquedos acabam seguindo a principal demanda de curto prazo, que ainda sustenta a tradicional divisão por gênero.

Mas fabricantes já começam a investir mais para atender o que eles consideram uma demanda reprimida: meninas que querem se ver representadas em situações mais aventureiras e, principalmente, mães e pais que querem ensinar seus filhos meninos a cuidar da casa, para que se tornem adultos independentes e maridos melhores.

Fabricantes de brinquedos afirmam que a resistência da sociedade a brinquedos cor-de-rosa para meninos é maior do que aos brinquedos azuis para meninas (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Fabricantes de brinquedos afirmam que a resistência da sociedade a brinquedos cor-de-rosa para meninos é maior do que aos brinquedos azuis para meninas (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Nova demanda dos consumidores

Um passeio pelos estandes do evento, que acontece no Expo Center Norte, na Zona Norte da cidade, mostra diversas alternativas de brinquedos que fogem dos estereótipos, embora elas ainda representem uma minoria do que está sendo oferecido aos visitantes e compradores.

Maior feira de brinquedos da América Latina, a Abrin neste ano tem 130 expositores e espera um público de 15 mil pessoas do setor. Renato Pereira é um deles. Diretor da Zuca Toys, uma fábrica que fica em Itatiba (SP), ele vende brinquedos populares e começou a fabricar kits de cozinha há 15 anos. “Naquela época todo mundo fazia assim, rosa. Está meio que no inconsciente da gente”, explicou ele. Para não ficar monocromático, a escolha era sempre acompanhar o rosa com o lilás para esses jogos, classificados como “reprodução do mundo real”.

Foi só em 2015 que a fábrica decidiu lançar seus primeiros jogos de cozinha com cores diferentes, visando o público masculino. A reação foi para ouvir alguns pedidos que apareciam de mães que escreviam à fábrica pelo site e acompanhar tendências.

“As mães começaram a mudar o hábito, dizem que querem ensinar o filho a cozinhar para ser independente quando morar sozinho, para ser um bom marido. Elas falam que é para ter mais igualdade no casamento. Nunca pensamos que poderia ser lúdico assim.”

Segundo Renato Pereira, diretor da Zuca Toys, atualmente 20% das vendas de kits de cozinha são nos modelos coloridos, que não usam o rosa (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Segundo Renato Pereira, diretor da Zuca Toys, atualmente 20% das vendas de kits de cozinha são nos modelos coloridos, que não usam o rosa (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Atualmente, a Zuca Toys oferece kits de cafeteria, utensílios para lavar louça, passar roupa, jogos de panelinha e outros itens, em jogos ou avulsos, tanto em rosa quanto em outras opções, principalmente em vermelho. Em três anos, Pereira afirmou que os kits neutros já respondem por 20% das vendas.

“A gente começou a escutar o mercado. Desses 20% eu não sei quanto é para menino ou para meninas. Mas acho que esses 20% mostram uma demanda que estava reprimida.”

Moda gourmet

Além de pedidos motivados pela igualdade de gênero, Pereira cita outra tendência que abriu as portas para brinquedos de casinha voltados para meninos: a moda gourmet. “Em 2017 lançamos nossa linha chef, não é só para atender meninos e meninas, é também por causa da moda gourmet e dos programas de gastronomia”, explicou ele.

Tamara Campos, gerente de marketing da Xalingo Brinquedos, seguiu pelo mesmo caminho quando lançou, em 2016, uma linha com cozinha e refrigerador com cores vermelha, preta e cinza e imagens de um menino brincando ao lado de uma menina na caixa.

Cozinha 'unissex' lançada pela Xalingo Brinquedos em 2016, impulsionada pela demanda por igualdade, a tendência da alimentação saudável e a moda dos programas de culinária: sem rosa, detalhes masculinos e 'gourmet', e a primeira vez que a empresa incluiu a imagem de um menino na embalagem de um brinquedo de cozinha (Foto: Divulgação/Xalingo Brinquedos)

Cozinha ‘unissex’ lançada pela Xalingo Brinquedos em 2016, impulsionada pela demanda por igualdade, a tendência da alimentação saudável e a moda dos programas de culinária: sem rosa, detalhes masculinos e ‘gourmet’, e a primeira vez que a empresa incluiu a imagem de um menino na embalagem de um brinquedo de cozinha (Foto: Divulgação/Xalingo Brinquedos)

Segundo ela, a maior identificação de homens com a culinária dos programas de gastronomia, além da preocupação cada vez maior de comida saudável, foram ganchos usados pela fabricante para aproveitar o interesse e lançar a nova linha.

“Existe uma barreira muito maior quando o menino quer brincar de casinha do que a menina querer brincar de ferramentas”, disse Tamara. “Convencer o pai é muito mais difícil. A criança não tem esse preconceito, ela quer brincar, aprender o mundo.”

A Calesita foi uma de diversas empresas que expuseram, na 35ª Abrin, em São Paulo, kits de cozinha sem o cor-de-rosa, almejando agradar aos pais e mães de meninos (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

A Calesita foi uma de diversas empresas que expuseram, na 35ª Abrin, em São Paulo, kits de cozinha sem o cor-de-rosa, almejando agradar aos pais e mães de meninos (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

 Via: G1