Em entrevista ao Roda Viva, Fernando Haddad fala sobre os últimos dias de campanha

23/10/2018 às 09:41.

“Meu adversário cultiva a tortura, tem como ídolo o principal torturador da ditadura, trata quilombola como alguém que pode ser vendido em arroba, é uma pessoa que não perde a oportunidade de ofender mulher. Uma pessoa dessa não tem tradição que respeite a grande jornada de redemocratização que eu ajudei a construir. Sempre fui um amante da democracia”.

Essa foi a primeira resposta do presidenciável petista Fernando Haddad, que participou na noite desta segunda-feira (22) de entrevista no programa Roda Viva, na TV Cultura.

Foto: TV Cultura

O tema democracia deu o tom do discurso do candidato. Sempre que possível, ele retomou o assunto, de forma estratégica, após a repercussão negativa do fala do filho de seu oponente Jair Bolsonaro (PSL), o deputado federal eleito Eduardo Bolsonaro , que disse: “um cabo e um soldado bastam para fechar o STF”.

A fala foi publicamente rechaçada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a quem Haddad “invocou” na entrevista. “Todo mundo que lutou por democracia sabe dos riscos que a democracia que o país está correndo”, disse Haddad. “A pessoa [Bolsonaro] está se cercando de uma milícia. Já disse que não vai respeitar a autonomia de do Ministério Público, quer aumentar o número de ministros do Supremo, e o filho falou em fechar o STF”.

Segundo o petista, democratas estão com ele direta ou indiretamente. Ele mencionou a ex-presidenciável Marina Silva, que hoje confirmou um apoio crítico, e também o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ameaças

Segundo Fernando Haddad, Jair Bolsonaro “está incitando a morte de pessoas”. O petista se referia a trecho da mensagem de vídeo enviada a apoiadores que fizeram ato na Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (21), na qual o candidato do PSL afirmou: “Vamos varrer do mapa os bandidos vermelhos”. “Estou colocando em evidência ameaças que estou sofrendo como pessoa física”, disse Haddad, que completou: “Ele (Bolsonaro) falou que iria eliminar fisicamente opositores”.

O presidenciável acrescentou ainda que um dos filhos de Bolsonaro diz que vai declarar guerra à Venezuela, país vizinho ao qual o PT é acusado de ser aliado. “A Venezuela tem situação bélica bem superior ao Brasil. Ele fala sem saber. O Brasil vai, provavelmente, pedir ajuda internacional aos americanos? Ou colocar um monte de jovens, possivelmente pobres, para morrer nas nossas fronteiras?”, completou o candidato do PT.

Haddad ainda mencionou Adolf Hitler, político alemão, líder do partido nazista, que instaurou uma ditadura na Alemanha entre 1934 e 1945. “Você acha que os sociais democratas erraram ao alertar sobre a chegada ao poder de Hitler? O que a gente tem que fazer em campanha é alertar. Bolsonaro não tem cultura democrática.”

Fake news

Fernando Haddad foi questionado ainda sobre a notícia do jornal Folha de S.Paulo, que na última quinta (18) denunciou um suposto esquema de compra de pacotes de disparo de mensagens em massa contra o PT no WhatsApp.

O petista disse ter defendido a abertura de inquérito e a busca e apreensão de computadores para que se desvendasse como ocorria o fato denunciado. “Tenho certeza que se tivéssemos a fonte junto com o pagamento, poderíamos ter pedido a prisão preventiva. A própria Justiça já falou que caixa 2 é mais grave que a corrupção e coloca em risco a democracia. Palavras do juiz Sergio Moro”.
Autocrítica?

Haddad saiu em defesa do ex-presidente Lula, seu padrinho político. “Acho que ele foi um injustiçado. Espero que a Justiça reveja essa sentença. Prefiro estar tranquilo com minha consciência. Acho que os tribunais superiores terão oportunidade de fazer uma reparação.”

“O que está sendo pedido é zelar para que as cortes façam um julgamento apartidário. E não acho que está pedindo de mais”, completou.

Ele disse ainda que não foi um exagero a insistência na candidatura do ex-presidente até a data limite para a troca do cabeça de chapa à presidência: “Nossa esperança era que algum organismo internacional se manifestasse, e a ONU disse que, pela convenção internacional assinada pelo Brasil, o TSE não deveria cassar a candidatura. É muito raro a ONU se valer de um tratado internacional para recomendar em prol dos direitos políticos. Tem pouquíssimos precedentes no mundo. Quando conseguimos, achávamos que tinha uma chance. E o TSE achou que não tinha validade e cassou o registro”, disse o candidato.

Interrompido com um questionamento sobre a existência de crimes no PT, Fernando Haddad disse: “Houve”. “Ainda não tem ninguém julgado em última instância. Acho um erro condenar sem o trânsito em julgado. Mas certamente há pessoas que usaram o financiamento de caixa dois para enriquecer. Acredito que teve gente que usou isso para enriquecer.”

A autocrítica é uma postura que vem sendo cobrada do PT há tempos e foi admitida pelo coordenador da campanha de Haddad neste segundo turno, Jaques Wagner, que defende essa postura desde o início. Contudo, os próprios petistas admitem que o discurso chegou tarde e não tem sido capaz de mobilizar e mudar o pensamento antipetista.
Frente democrática

Uma das perguntas foi sobre o fracasso da frente democrática, uma das intenções do PT nesse segundo turno, que Haddad viu naufragar na semana passada, mas que o candidato acredita ter ganho novo fôlego a partir das declarações de Eduardo Bolsonaro que vieram à tona no domingo.

Um dos apoios para essa frente decolar é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com quem o candidato falou por telefone nesta segunda. O petista vem tentando atrair um apoio formal do tucano desde o início do segundo turno, na esperança de que isso atraia o voto da esquerda. Até então, FHC tem demonstrado resistência a isso. Antes do telefonema, o ex-presidente postou em seu Twitter:

Também nessa segunda, Haddad teve declarado o “apoio crítico” da ex-presidenciável Marina Silva (Rede), que ele também mencionou ao longo da entrevista.

Segundo ele disse no Roda Viva, a tentativa de formar a frente democrática não fracassou. Além de Marina e do apoio “informal” de FHC – ele diz que o ex-presidente não declara apoio oficialmente por conta do partido, mas tem demonstrado indignação com Bolsonaro -, há o PDT, com “arestas aparadas” e vídeos de apoio de Cid Gomes.
Mercado

“Eu estou concorrendo com uma pessoa que não administrou nem um boteco”. Assim Haddad defende que é melhor que Bolsonaro na economia. Ele disse que deixou em ordem as contas do Ministério da Educação e da Prefeitura de São Paulo.

Haddad admitiu que Dilma Rousseff cometeu erros na política econômica. “Dilma errou quando começou a querer administrar empregos e inflação em preço público”. Ponderou, porém, que, não houvesse uma crise política junto, a crise econômica não haveria tomado a proporção que tomou. Segundo ele, quem afirmou isso foi o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), que no primeiro turno admitiu que os tucanos erraram ao apoiar as chamadas pautas bomba propostas pelo então presidente da Câmara e ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ).
Reforma bancária e “vale gás”

Haddad disse que é necessária uma reforma bancária. Ele lembrou que, no governo Dilma, os bancos públicos reduziram artificialmente os juros. “E isso eu não concordava. Se não for feita uma reforma bancária, nunca vamos nos tornar uma sociedade capitalista moderna”, afirmou Haddad, lembrando das altas taxas de juros, que chegam em média 120% ao ano para cheque especial.

Segundo o candidato, quem fará isso é o Banco Central, que na opinião de Haddad “sempre foi capturado pelo interesse dos bancos”. Ele destaca que “o governo fixa a meta [da Selic] e o Banco Central corre atrás”.

Outra questão foi sobre o subsídio ao gás. O candidato afirma que apenas 4% do faturamento da Petrobras segue para essa modalidade de combustível. “Esse item vai entrar na cesta básica”, afirma. Ele criticou o atual subsídio ao diesel, determinado pelo governo Temer: “Não tem sentido dar R$ 13 bilhões ao diesel e não dar 4% ao gás de cozinha”.

Durante a entrevista de Fernando Haddad ao Roda Viva, o jornalista Ricardo Lessa foi o mediador da sabatina, que contou ainda com os entrevistadores Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo; Fernando Canzian, repórter especial do jornal Folha de S.Paulo; Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico; Vicente Nunes, editor-executivo do Correio Braziliense; e Vera Magalhães, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e comentarista da Rádio Jovem Pan.

Via: Gazeta Do Povo