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“É desumano cobrar perdão de uma mãe que perdeu o filho dessa forma tão desprezível”, diz mãe de Miguel

15/06/2020 às 08:52.

O caso do menino Miguel, 5 anos, que morreu depois de cair do nono andar de um prédio de luxo no Recife, em Pernambuco, comoveu o Brasil. E não daria para ser diferente. Mirtes Renata, sua mãe, trabalhava como doméstica na casa de Sarí Gaspar Côrtes Real e seu marido, Sérgio Hacker, prefeito da cidade de Tamandaré, e desceu para levar os cachorros dos patrões para passear. O pequeno ficou por alguns minutos aos cuidados de Sarí, que fazia as unhas. Em um vídeo do circuito de segurança, Sarí aparece colocando Miguel em um elevador, que sobe até o nono andar. De lá, ele caiu e morreu. A patroa foi indiciada por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, mas pagou uma fiança de R$ 20 mil e foi solta.

Alguns dias depois, Sarí escreveu uma carta de desculpas, mas, em vez de direcioná-la a Mirtes, enviou-a para a imprensa. Nesta semana, então, Mirtes e seu advogado escreveram também uma carta, mas enviaram-na primeiro à ex-patroa e, depois, aos veículos de comunicação. Comovente, o texto tem sido compartilhado por milhares de pessoas na internet. Nele, Mirtes pede por justiça e diz que, antes de qualquer punição, “perdoar, seria matar Miguel novamente”. Confira a íntegra:

Recife, 10 de junho de 2020

SOBRE O PERDÃO PEDIDO POR SARI

Eu não recebi qualquer pedido de desculpas. A carta de perdão foi dirigida à imprensa, o que me faz pensar que eu não era destinatária, mas sim a opinião pública com a qual ela se preocupa por mera vaidade e por ser esse um ano de eleição.

Eu não tenho rancor. Tenho saudade do meu filho. O sentido da vida de quem e%u0301 mãe passa pelo cheiro do cabelo do filho ao acordar, pelo sorriso nas suas brincadeiras, pelo “mamãe” quando precisa do colo e do abrigo de quem o trouxe ao mundo. Uma mãe, sem seu filho, sofre uma crise, não apenas de identidade, como também de existência. Quem sou eu sem Miguel? Ela tirou de mim o meu neguinho, minha vida, por quem eu trabalhava e acordava todos os dias.

Quando eu grito que quero justiça, isso significa que eu preciso que alguém assuma a minha dor, lute minha luta, seja o destilado da cólera que eu não quero e nem posso ser. Eu não tenho forças neste momento, não tenho chão. Não tenho vida!

Após poucos dias é desumano cobrar perdão de uma mãe que perdeu o filho dessa forma tão desprezível. Afinal, sabemos que ela não trataria assim o filho de uma amiga. Ela agiu assim com o meu filho, como se ele tivesse menos valor, como se ele pudesse sofrer qualquer tipo de violência por ser “filho da empregada”.

Perdoar pressupõe punição; do contrário, não há perdão, senão condescendência. A aplicação de uma pena será libertadora, abrandará o meu sofrimento, permitirá o meu recomeço e abrirá espaço para o que foi pedido: perdão.. antes disso, perdoar seria matar o Miguel novamente.

Via: Revista Crescer