Depois de dar à luz filha com Síndrome de Down, mãe adota duas crianças com a mesma condição

13/12/2018 às 10:24.

No total são 7 os filhos de Kecia Kox. Depois do nascimento da terceira, que apresentou Síndrome de Down, ela adotou uma ucraniana de 4 anos e um ucraniano de 10 meses, os dois com a mesma condição

Kecia, o marido e a família de sete filhos (Foto: Reprodução / Instagram)

Algumas histórias de maternidade são inspiradoras – a de Kecia Kox é certamente uma delas. Moradora do Estado de Utah, nos Estados Unidos, ela conta como sua vida mudou a partir da terceira filha, portadora de Síndrome de Down.

Ao entrar no mundo dos que carregam o cromossoma extra, Kecia descobriu uma menina ucraniana com a mesma condição, abandonada pelos pais em um abrigo na Ucrânia desde o seu nascimento. Adotou-a sem antes nunca ter considerado tal ato. Em seguida, se descobriu grávida de surpresa, após seguidas perdas gestacionais, de gêmeas que correram risco de vida na barriga, mas que nasceram saudáveis. Não termina aí: ao conhecer a história de um bebê de 10 meses rejeitado pelo pai na Ucrânia, ela ainda teve fôlego para, junto com o marido, adotá-lo também. O relato de Kecia detalha esses momentos que mudam o curso da vida, e certamente inspiram. Acompanhe abaixo. O texto original foi publicado por ela no site Love What Matters em 20 de novembro.

Kecia, o marido e a família de sete filhos (Foto: Reprodução / Instagram)

“Eu tinha 27 anos, era jovem e saudável. Quando minha terceira filha, Bree, nasceu via cesárea, eu só consegui ver seu rosto por um breve momento antes de levarem-na para o oxigênio. Eu fui levada para recuperação e via médicos e enfermeiros sussurrando no corredor. Até que a notícia foi finalmente entregue… ‘Acreditamos que seu bebê tem Síndrome de Down’.

Passei as primeiras 24 horas da vida de Bree em lágrimas, sem ela em meus braços. Só depois de um dia inteiro consegui ser levada para o berçário para vê-la novamente. Não consegui segurá-la desde que soube que ela tinha Síndrome de Down e meu coração estava partido. Precisava dela. Quando cheguei em sua pequena incubadora e ela envolveu seus pequenos dedos ao redor dos meus, eu sabia que tudo ia ficar bem. Esse momento me mudou para sempre.

Kecia com Bree (Foto: Reprodução / Instagram)

Quando Bree tinha 2 anos, decidimos tentar outro bebê, apenas para passar por uma gravidez ectópica e depois outra gravidez que terminou com um aborto tardio às 16 semanas. Fiquei arrasada depois do aborto tardio. Foi o meu terceiro aborto e eu queria muito outro filho.

Estava triste e foi então que encontrei os olhos perdidos de uma menina de 4 anos esperando em um orfanato na Ucrânia. Essa menininha era um mês mais velha do que a minha Bree, e ela também tinha Down. Mas ao invés de viver os últimos 4 anos com uma família e uma casa, ela passou seus primeiros 3 meses de vida sozinha na UTI de um hospital e foi transferida, sozinha, para um orfanato onde morou por 4,5 anos e esteve prestes a ser transferida para uma instituição mental para adultos. E se esse fosse o destino de Bree? É como se todo um novo pedaço do meu coração se abrisse naquele dia quando o rosto dela apareceu na tela do meu computador. Comecei a soluçar. Era como se seus olhos escuros e tristes estivessem perfurando minha alma e dizendo: “Você é minha mãe e precisa vir me buscar”.

Kecia com Mia, ucraniana (Foto: Reprodução / Instagram)

Cinco meses depois, muita angariação de fundos e ajuda milagrosa de amigos, familiares e desconhecidos, pilhas e pilhas de papelada, milhares de quilômetros percorridos de avião e depois de trem, e finalmente estávamos em um orfanato abraçando essa menina e dizendo a ela que ela nunca iria ficar sozinha novamente. Ela finalmente seria capaz de prosperar, em vez de meramente sobreviver.

Uma semana depois de voltar para casa com Mia, eu estava me sentindo mal e entendi que ainda era um jetlag prolongado. Mas, para nossa grande surpresa, não foi o fuso horário. Descobri que estava grávida. E não só isso, mas eu estava grávida de gêmeas!

Como se não bastasse, as gêmeas foram diagnosticados com síndrome de transfusão gemelar e eu deveria ser monitorada de perto. Na minha consulta de 20 semanas, descobrimos que sua condição se tornou crítica e que precisaríamos voar para a Califórnia em dois dias para realizar uma cirurgia salva-vidas arriscada no útero.

As gêmas com Noah (Foto: Reprodução / Instagram)

Lá estava eu com duas meninas basicamente gêmeas em casa, as duas com síndrome de Down, uma das quais estava em casa há um mês e ainda não falava inglês, e agora eu estava tendo gêmeas!

As gêmeas estavam compartilhando nutrientes. Um bebê doava todos os nutrientes para o outro, como se seu corpo estivesse se desligando. O bebê que recebeu todos os nutrientes estava em risco de insuficiência cardíaca porque ela tinha muito líquido, então os dois bebês estavam morrendo e tivemos que agir rápido. Nunca me senti tão assustada. Meu marido não podia entrar na sala de cirurgia comigo e eu estava acordada durante o procedimento, assistindo em um monitor na minha cabeceira enquanto meus dois bebês não nascidos lutavam para sobreviver.

Tivemos que esperar 24 horas para fazer um ultrassom para ver se elas haviam sobrevivido. Meu marido e eu seguramos as mãos com força quando o médico começou a varredura. “Há um batimento cardíaco … e há o outro.” Foi um milagre. Cinco meses de repouso depois, nasceram dois bebês saudáveis, de 37 semanas. Nenhum deles passou um minuto na UTI neonatal. Em 10 meses, passamos de 3 crianças para 6 crianças, supondo que nossa família estivesse completa. Mas estávamos errados mais uma vez.

Em maio de 2015, um menino nasceu de uma mãe na Ucrânia. Ao saber que seu filho tinha síndrome de Down, os médicos disseram que ela deveria deixar o bebê, pois ele não era normal. Seu marido pediu que ela escolhesse entre o recém-nascido e ele e seu filho de 10 anos de idade. Em uma decisão angustiante, essa mãe teve que deixar seu bebê sozinha em um orfanato. Não tendo nenhuma ideia do que seria de seu filho, ela se afastou.

Ela orou todos os dias durante 10 meses para que outra mãe salvasse seu bebê. Eu fui abençoada por ser essa outra mãe – uma mãe do outro lado do mundo que estava ligada às orações de uma mãe de Kiev, na Ucrânia. Então fomos para a Ucrânia novamente, para encontrar o irmãozinho, Noah.

Enquanto estávamos na Ucrânia, tivemos a rara bênção de conhecer a mãe biológica de Noah. Um inexplicável amor e poder transcendidos naquele pequeno orfanato naquele dia, quebrando barreiras linguísticas e conectando peças do nosso quebra-cabeça, peças que nenhum de nós sabia que estavam faltando. Desde então, temos tido o privilégio de manter um relacionamento contínuo com ela através das mídias sociais.

Naquele dia de inverno, quando Bree nasceu e nosso mundo como conhecíamos, desabou, não tínhamos ideia de que seria o início de uma jornada de amor tão incrível. Por causa dela e seu cromossomo extra, por causa de sua influência em nossas vidas, viajaríamos ao redor do mundo para um país estrangeiro mais duas vezes e escolheríamos a Síndrome de Down. Muitas vezes me perguntam: “Como você foi de deitar na cama do hospital chorando com a notícia de que Bree estava com Síndrome de Down… a ter TRÊS filhos com Síndrome de Down?”

Difícil dar uma resposta para essa pergunta porque, apesar dessa situação, ainda passamos pelo mesmo início emocional, avassalador e incerto pelo qual qualquer um passa quando se depara com a notícia de que seu bebê tem Down. Nós choramos, nós nos preocupamos. Ficamos com medo. Nos sentimos perdidos e sozinhos. Mas vivemos um dia de cada vez e, sem perceber, estamos olhando para trás, imaginando como chegamos aqui. Imaginando como aquelas nuvens de tempestade de medo se transformaram em um espetacular pôr do sol de felicidade.

Agora temos sete filhos, com idades de 16, 14, 11, 11, 6, 6 e 3. Sou esposa e mãe de seis princesas e um príncipe. Fomos abençoados pela Síndrome de Down, adoção, gêmeos idênticos e muito amor. Três de nossos sete filhos carregam o mesmo cromossomo extra, mas assim como cada um de nossos filhos, necessidades especiais ou não, eles são, cada um, seu próprio milagre, deixando sua própria marca no mundo enquanto nos ensinam o que mais importa… O amor”.

Os sete filhos  (Foto: Reprodução / Instagram)