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De alta, Claudia Rodrigues sai do isolamento: transplante de células-tronco deu certo

19/07/2017 às 09:05.

A atriz e comediante Claudia Rodrigues recebeu duas grandes notícias de uma vez só. Ela teve alta do Hospital Albert Einstein, onde estava internada em decorrência de uma crise emocional. Mais importante ainda: Claudia teve alta do tratamento relativo ao transplante de células-tronco que fez em janeiro de 2016 por conta da esclerose múltipla.

Claudia Rodrigues tem esclerose múltipla, uma doença sem cura e cuja origem ainda não é definida pela ciência. O diagnóstico da atriz foi confirmado em 2000. O tratamento baseado em transplante de células-tronco a qual ela recorreu é experimental: apenas pequenos grupos dentre as mais de 2 milhões de pessoas portadoras da doença testaram o método.

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O período de tratamento prevê a possibilidade de que ocorra uma série de surtos emocionais – como o mais recente sofrido pela comediante. Além disso, é preciso isolamento quase total durante um a dois meses – como o procedimento enfraquece o sistema imunológico, abre-se uma janela para diversas doenças.

“Agora, ela está novamente autoimune. Pode voltar a abraçar e beijar os fãs, algo que ela sentia muita falta”, celebra Adriane. Claudia Rodrigues agora voltará à clínica onde fazia um trabalho de fisioterapia para recuperar o equilíbrio e a qualidade no andar – até novembro deve ter alta também deste tratamento.

Segundo o coordenador médico Rodrigo Thomaz, do centro de tratamento de esclerose múltipla do programa integrado de neurologia do Hospital Albert Einstein, se o tratamento é bem-sucedido, a doença para de progredir. “Estaciona onde está, as lesões são interrompidas e os surtos param por anos. Em comparação com outros tratamentos, é o que deixa o paciente mais livre dos surtos”, explica.

Esclerose múltipla: o que é

A esclerose múltipla ainda não tem sua causa conhecida pela ciência e ela pode surgir sem nenhum sinal prévio ou herança genética – antes de se manifestar, seus sintomas são imperceptíveis e podem se arrastar por anos. Estima-se que aproximadamente 2,3 milhões de pessoas tenham a doença em todo mundo, sendo 35 mil delas brasileiros.

Na doença, o próprio sistema imunológico do paciente ataca a bainha mielina, que é a substância que reveste e protege as fibras nervosas do cérebro, da medula espinhal e do nervo óptico. Assim, ocorrem curtos-circuitos dos fluxos nervosos e, a cada surto, surgem lesões cerebrais que podem resultar em danos irreparáveis.

As consequências da esclerose múltipla podem variar desde fadiga e fraquezas, passando por tremores e confusões visuais e de fala, até o estágio mais avançado, que afeta condições cognitivas.

Como funciona o transplante de células-tronco

Em termos gerais, podemos entender o tratamento via transplante por células-tronco como um “reset” no sistema imunológico. São quatro os principais estágios da terapia:

Produção de células: o primeiro procedimento pelo qual o paciente é submetido é um ciclo curto de quimioterapia, que estimula o organismo a produzir células-tronco do tipo hematopoiéticas. Essas células brancas do sangue (linfócitos) são recolhidas pelos médicos.

Quimioterapia intensa: durante dez dias, o paciente é submetido a sessões intensas de quimioterapia – é o pior momento de todo o tratamento, os efeitos colaterais são fortes. Nesta etapa, o sistema imunológico até então doente é destruído pelas sessões. “Pode causar fraqueza, fadiga extrema, náuseas, queda de cabelo e infecções de toda ordem. Como o tratamento zera as células brancas do sangue, zera também as vermelhas, e é comum que tenham anemia”, relata Dr. Rodrigo.

Reinserção das células: as células-tronco retiradas passam por um processo de análise e delas são retirados quaisquer traços da doença. Após a quimioterapia, elas são reinseridas no corpo. O sistema imunológico é, então, reiniciado do zero. “A vantagem é que é próprio do paciente, não precisa de doação de medula. Não tem risco de rejeição no futuro como outros tipos de transplante”, afirma o neurologista.

Recuperação: logo após a reinserção das células-tronco, o sistema imunológico ainda não cumpre sua função no organismo. Nos primeiros um ou dois meses, o risco de contrair infecções é alto e o paciente precisa de isolamento quase total. Durante dois anos após o “reset” no sistema imunológico, ainda é preciso cuidado com contaminações. “Nos primeiros dias, o paciente fica muito vulnerável a infecções e geralmente exaustos, acamados. Há risco de infecção generalizada e também de trombose e embolia pulmonar devido a coágulos”, alerta o médico.

Quais os riscos e resultados

De acordo com as pesquisas mais recentes, os benefícios do tratamento são bastante evidentes. Assim como os riscos que ele traz.

“O tratamento não é a primeira opção, só recomendamos quando uma terapia já consagrada falha. Não existe tratamento 100% eficaz, nem em relação aos medicamentos mais novos, mais modernos”, explica Dr. Rodrigo. “Não é um procedimento fácil de ser feito, tem risco. O médico precisa ponderar o risco do transplante e o risco doença”.

No mais amplo estudo sobre o transplante de células-tronco para o tratamento da esclerose múltipla, realizado pelo Imperial College de Londres e publicado na revista científica Jama Neurology, 73% dos pacientes não tiveram piora no quadro após o procedimento – um resultado bastante positivo.

Dos 281 pacientes acompanhados entre 1995 e 2006, 46% tiveram inclusive melhoras neurológicas durante o intervalo de cinco anos. Constatou-se que, quando realizado em pacientes mais jovens ou no estágio inicial da doença, melhores são os resultados. Nos casos mais graves, o risco cresce.

Aí mora o perigo: em consequência do tratamento, oito pessoas morreram até 100 dias depois do transplante, de acordo com a pesquisa inglesa. No Canadá, um estudo realizado pela Universidade de Ottawa e publicado no jornal científico The Lancet, apontou risco de mortalidade ainda maior: 4,15% não sobreviveu – logo que o tratamento foi testado, este índice chegou a 8%.

O levantamento canadense, por outro lado, trouxe respostas positivas mais importantes: sete em cada dez pacientes teve a progressão da doença interrompida ou até revertida, e 4 a cada dez reverteram sintomas graves, como perda da visão e fraqueza muscular.

Via: Vix