Curitiba é a capital da cerveja artesanal no Brasil

02/08/2017 às 12:56.

Em 2010 eu provavelmente entendia tanto de cerveja artesanal quanto de Física Quântica. Mas, como repórter relativamente novato no ramo do jornalismo gastronômico, aceitei o convite de Douglas Salvador, dono de um dos poucos bares da cidade especializados em cervejas especiais na época, o Clube do Malte, para conhecer um cara que era uma espécie de promessa das panelas de malte e lúpulo – esse “Neymar cervejeiro” estava prestes a abrir uma fábrica e a ideia de passar uma tarde bebendo a trabalho pareceu tentadora. Alessandro Oliveira falou e falou. Especificou todos os detalhes técnicos que meu fígado até então ignorava. Parecia um misto de autoconfiante e presunçoso. Era mais o primeiro. Sete anos depois, sua Way Beer é um ícone. A cervejaria, instalada em Pinhais, exporta 50 mil litros por trimestre para os Estados Unidos, tem a terceira melhor american pale ale do mundo segundo o site RateBeer, o mais respeitado de avaliação dessas bebidas, e é convidada anualmente para expor na feira organizada pelo dinamarquês Mikkel Borg, da Mikkeler (meu amigo, é como se o Paul McCartney te chamasse para tocar baixo em sua banda).

Foto: Albari Rosa

 

Não era somente eu que pouco entendia de cervejas artesanais há sete anos. A escalada meteórica da Way exemplifica da melhor forma como a Grande Curitiba saiu de um cenário quase de ostracismo, quando o chope Brahma (representante-mor das industriais) ainda reinava absoluto, para se tornar em pouco tempo o epicentro de uma recente febre cervejeira nacional. Hoje, tem mais torneiras de chopes especiais pela cidade que milímetros de chuva no ano. “É a capital da cerveja no país”, decreta Richard Buschmann, presidente da entidade de empresários do setor, a Procerva, sem medo de magoar paulistas e porto-alegrenses.  “Não é onde tem o maior número de microcervejarias [esse título fica com os paulistas], mas é onde estão muitas das marcas mais reconhecidas e premiadas. Há um olhar diferente para as cervejas daqui, um olhar de admiração. A cidade é reconhecida pela inovação e credibilidade. Tem um status de veterana”, diz Luis Celso Jr., jornalista e mestre em estilos que acompanhou de perto todo esse desenvolvimento e quem melhor o retratou em seu blog Bar do Celso (também uma coluna mensal da revista Bom Gourmet).

Por aqui, a sede encontrou a vontade de beber. Os cervejeiros locais perceberam a boa onda e não pouparam criatividade para criar uma identidade própria. A Way colocou notas de amburana (uma árvore) em uma lager; a BierHoff usou abóbora; a Bodebrown, cacau; a Ogre Beer apimentou sua receita; a Morada usou grãos de café. Enquanto os outros estados que se destacavam nessa corrente de cervejas especiais, como São Paulo e Minas, foram bem mais puritanos (se mantinham fieis a quatro ou cinco estilos), os curitibanos já estavam chutando o balde, uma filosofia mais livre que lembrava muito mais as escolas inglesa e americana do que a alemã, como classifica Luis Celso. Em 2013, quando o Ministério da Agricultura liberou a adição de matérias-primas além de água, malte e lúpulo nas cervejas engarrafadas, os fabricantes daqui já estavam um passo a frente.

Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo.

 

E a ousadia curitibana veio (e continua vindo) em forma de prêmios. A Forbes disse em 2015 que a Hop Arábica (da Morada) era a segunda melhor cerveja que se poderia beber no Brasil – perdia somente para uma belga. Na edição 2017 do festival Brasileiro da Cerveja (a maior feira nacional da bebida, realizada anualmente em Blumenau), duas das três melhores cervejarias do país são curitibanas: a Bodebrown e a BierHoff, segunda e terceira colocadas. A Bodebrown, aliás, esteve entre as três melhores em todas as cinco edições da avaliação, sendo medalha de ouro em 2013 e 2014. Fruto de um trabalho do pernambucano Samuel Cavalcanti, um Einstein da bebida em termos de genialidade (e visual). Das aulas realizadas em sua cervejaria-escola, aberta em 2010 (o ano mágico para a cerveja curitibana) no Hauer, saíram muitos outros cervejeiros respeitados da cidade.

As medalhas, porém, são só uma pequena forma de medir o sucesso da bebida produzida nas panelas curitibanas. Uma forma até mais eficiente de medir essa força é a observação no dia a dia. Se antes de 2010 existiam quatro cervejarias artesanais com mais expressão (Klein, Asgard, Gauden e BierHoff), hoje elas pipocam em um ritmo quase frenético. Em 2010 veio Morada, Bodebrown, Pagan, Wensky, DUM. Nos anos seguintes Bastards, Palta, Maniacs, Swamp e várias outras. Nem mesmo a Procerva sabe ao certo quantas fabricantes existem. A associação tem 55 associados, 90% deles na região de Curitiba. Mas Richard Buschmann, presidente, aponta que tem muito mais gente nesse jogo. Da mesma forma, os bares especializados, que poderiam ser contados nos dedos das mãos em 2010, se multiplicaram. Hoje, pedir uma stout, IPA, APA, weizen, red ale ou fruit lambic já não soa como coisa de entendidos e chatos. Elas estão nas casas do Batel, mas também no Pinheirinho. É cerveja como tem que ser.

“80% das cervejas que servimos no bar são daqui”, conta Marilise de Oliveira, beer sommelier e uma das proprietárias do Hendrix Brew House, bar descolado no Juvevê. “Isso é para valorizar o produto que é daqui e para garantir qualidade, já que trazer coisas de longe pode ficar mais caro e, às vezes, vir numa qualidade que não é tão boa”, conta. O cliente aplaude. “É curioso, pois existe um padrão de comportamento do consumidor de cerveja que é o contrário de outros segmentos. Geralmente as pessoas acham que o que é de fora é melhor. Não acontece com a cerveja. O público daqui valoriza a cerveja daqui. Para a economia do estado isso é muito legal”, destaca Douglas Salvador, do Clube do Malte, citado no começo da reportagem – se naquela época o negócio engatinhava, hoje fatura R$ 10 milhões com bar e seu clube de assinaturas.

Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo.

Curitiba soube catalisar um movimento mundial, explica Luis Celso Jr.. “O que vivemos é um resgate das tradições cervejeiras que foram esquecidas no início do século 20 por conta das grandes guerras e da lei seca norte-americana, por exemplo. Neste período, a american lager se popularizou e virou a referência de cerveja. As pessoas foram esquecendo os outros estilos. A partir da década de 1970, os americanos voltam a olhar para essa tradição perdida. É o renascimento das cervejas artesanais, um termo que chamados de ‘craftbeer renaissance’”.

O movimento demorou duas décadas para chegar ao Brasil. “1995 é o marco zero desse movimento no Brasil, com a fundação da Dado Bier (do Rio Grande do Sul). Aí veio a Colorado. Mas de 1995 a 2006 esse movimento foi ainda embrionário. É a partir de 2006 que ganha força”, conta o jornalista. Dados do Instituto da Cerveja, entidade que oferece cursos de capacitação relacionados à bebida, mostram que o país saiu de menos de 50 microcervejarias em 2005 para quase 500 em 2016. A maioria esmagadora (91%) nas regiões Sul e Sudeste. “No Sul por ser uma região de colonização alemã. Há uma predisposição a mais de gostar de cervejas diferentes. Isso fez com que largássemos na frente nessa revolução cervejeira”, diz Luis Celso.

Apesar desse ressurgimento, as cervejas especiais nem fazem cócegas nas grandes cervejarias. Enquanto uma gigante como a AB Inbev, dona das marcas Brahma, Antarctica e Bohemia, tem produção mensal na casa dos bilhões de litros de cervejas, as pequenas ficam na sua média de 20 mil litros/mês. O Brasil, terceiro maior produtor mundial de cerveja, vendeu 138 milhões de hectolitros em 2015, aponta o Instituto da Cerveja. Destes, apenas 140 milhões de litros foram de artesanais. A parcela de mercado dos pequenos não chega a 1% em números atuais. É um trabalho muito mais de formiguinha. “Empregamos três vezes mais funcionários (proporcionalmente) que uma fábrica grande, toda mecanizada”, diz Buschmann.

Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Os números são discretíssimos, mas (com o perdão do trocadilho) os cervejeiros veem o copo meio cheio. Nos Estados Unidos, o market share das artesanais é de 13%. E é no mercado do Tio Sam que os cervejeiros daqui se espelham. A contar pelos números de lá, onde existem 10 vezes mais microcervejarias, há muito espaço para crescer. E eles sabem disso.

Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo.

“Essas informações serão importantes para tomadas de decisão do setor e para o Sebrae poder contribuir com o crescimento. Eles precisam atuar com indicadores para potencializar o crescimento e a colocação no mercado”, disse ao Bom Gourmet Janete Munhoz, coordenadora do curso de administração da Faculdade Guairacá e do projeto de extensão que formula a metodologia do estudo e apuração dos dados. Pode ser o passo fundamental para deixar a cidade ainda mais confortável no posto de Meca do império da água, malte e lúpulo.

Se a cerveja ganhou espaço em Curitiba, quem acompanhou esse crescimento com a barriga colada no balcão foi a Gazeta do Povo. Em 2013, o Bom Gourmet inclui a categoria “Carta de Cerveja” em sua premiação anual, o Prêmio Bom Gourmet. O objetivo era valorizar os espaços que serviam bebidas de qualidade.