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Conheça a “Casa S” que fica pronta em pouco tempo e custa menos de R$ 5 mil

27/07/2017 às 13:58.

Foto: Divulgação

 

No topo da colina, as estruturas de aço do tamanho de uma garagem para dois carros estavam sendo erguidas com vista para um vale verdejante, coberto de arrozais. Eram casas pré-fabricadas projetadas pelo arquiteto vietnamita Vo Trong Nghia. A própria equipe de construção disse ter ficado impressionada com a velocidade de sua obra: quase uma moldura de aço içada por hora, incluindo as pausas para fumar, e basicamente sem o uso de máquinas poderosas. “Parece Lego, e é fácil de instalar”, disse Nguyen Duc Trung, o supervisor do projeto. “Muito mais fácil do que construir uma casa normal”, disse um dos trabalhadores, Le Van Dung, entre tragadas do cigarro.

E muito mais barato também: uma pequena fração dos 35 mil dólares que, segundo ele, custaria para construir uma casa em sua aldeia norte-vietnamita. Conhecidas como “Casas S”, essas estruturas pré-fabricadas em Ba-Vi, a cerca de 50 quilômetros da capital do Vietnã, Hanói, são exemplares de um protótipo que Nghia desenvolve desde 2013. Elas serão os aposentos de um novo centro de meditação budista. Mas Nghia diz que seu plano é a fabricação em massa das moradias portáteis e fáceis de montar para pessoas em favelas, áreas remotas ou campos de refugiados em todo o mundo, a um preço inicial de 1.500 dólares (cerca de R$ 4,7 mil).

Foto: Amanda Mustard/The New York Times

“Nós, arquitetos, sempre fazemos projetos para clientes com muito dinheiro, mas há muitas necessidades em comunidades pobres também”, diz Nghia, cujo trabalho muitas vezes transpõe o minimalismo japonês para um contexto sul-asiático. Sua equipe diz que já está recebendo consultas preliminares de compradores distantes como Peru, Nigéria, Iêmem, Iraque e Síria.

O arquiteto, de 40 anos, afirma que a Casa S foi projetada para durar pelo menos 30 anos e suportar severas tempestades tropicais como as que sua família, muito pobre, uma vez experimentou na aldeia que vivia, no centro do Vietnã. “É uma iniciativa muito importante. Sem ela, os aldeões vão passar a vida inteira reconstruindo suas casas”. Nghia é o mais recente arquiteto a projetar uma casa pré-fabricada barata como antídoto para a expansão urbana, o deslocamento em massa ou catástrofes naturais.

Especialistas dizem que a Casa S é um dos vários projetos de arquitetura humanitária ou social em todo o mundo que destacam uma crescente consciência social na profissão em um momento em que o número de desabrigados em todo o mundo – 65,6 milhões no ano passado – é o mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial.

Foto: Amanda Mustard/The New York Times

Alguns desses projetos são reconhecidos tanto por sua forma quanto por sua função: o japonês Shigeru Ban projetou abrigos de tubos de papel recicláveis para vítimas de violência e desastres naturais, por exemplo, enquanto o chileno Alejandro Aravena foi pioneiro no que chama de projetos de habitação sociais “incrementais”, nos quais o morador compra a metade de uma casa de dois andares por uma taxa subsidiada pelo Estado, terminando de pagá-la quando e como puder.

Outros projetos são conhecidos por seus patrocinadores famosos. O projeto sueco Better Shelter, por exemplo, em parceria com o Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas e a loja de móveis Ikea, produz abrigos de emergência em massa, com painel solar, telhados e paredes com proteção UV e peças que podem ser substituídas individualmente. Essas e outras iniciativas, em geral, são bem-recebidas por profissionais da área. Ban e Aravena recentemente ganharam o prêmio Pritzker, maior prêmio mundial de arquitetura; o Museu de Arte Moderna de Nova York, no ano passado, selecionou uma unidade da Better Shelter para sua coleção permanente e exposição. Alguns críticos dizem, porém, que a arquitetura humanitária muitas vezes ignora as complexidades da política de habitação e finanças, bem como variações locais de clima, materiais de construção e preferências estéticas.

Foto: Amanda Mustard/The New York Times

 

Chang Jiat Hwee, professor assistente de Arquitetura da Universidade Nacional de Singapura e autor de “A Genealogy of Tropical Architecture: Colonial Networks, Nature and Technoscience” (Genealogia da arquitetura tropical: redes coloniais, natureza e tecnociência), diz que a ideia de utilizar casas pré-fabricadas para resolver problemas habitacionais no Hemisfério Sul foi iniciada pelos europeus, no século 19 e se tornou especialmente popular na década de 1950. Só que os projetos tinham vários problemas, hoje e na época, porque apresentavam uma abordagem universalista que ignorou as particularidades locais. Chang se pergunta se o projeto da Casa S poderia evitar as mesmas armadilhas.

“Vo Trong Nghia é um arquiteto muito bom e sua empresa projetou algumas belas casas familiares, mas acho que desenvolver um protótipo para habitação em massa apresenta desafios completamente diferentes.” Para Pham Thuy Loan, vice-presidente do Instituto Nacional de Arquitetura do Vietnã, não seria prático vender unidades da Casa S na maior parte do norte do Vietnã. “As pessoas de lá veriam um projeto com estrutura de aço como uma mudança radical demais do concreto tradicional. Talvez encarem a criação de Nghia como ‘a casa de outra pessoa, e não a sua própria’“, disse ela. “Já os habitantes de áreas rurais do sul do país podem ser favoráveis, porque alguns são menos comprometidos com a estética tradicional.

Nghia fez vários modelos da Casa S, em acabamentos e situações distintas, pensando que ela pode servir ainda como habitação temporária. “A Casa S é adequada para áreas remotas porque nenhum componente individual pesa mais de 45 quilos; seu design também poderia ser modificado para atender às condições locais, como tetos mais altos para climas mais quentes, por exemplo, ou unidades maiores para as comunidades com famílias numerosas.” Um dos estudos do arquiteto contou com uma casa com estrutura de concreto pré-moldado.

O objetivo deste projeto em série é fornecer casas estáveis, leves, permanentes, mais acessíveis, para assalariados de baixa renda em um clima tropical áspero. Embora existam muitos desafios locais, como condição do solo fraca, tifão frequente e potencial terremoto, a estrutura é estável o suficiente para suportar desastres naturais.  Os materiais de acabamento podem ser montados e substituídos facilmente por moradores e vizinhos. Em um dos protótipos, placas de cimento leve foram escolhidas como revestimento.

Foto: Amanda Mustard/The New York Time

O arquiteto conta que planeja ampliar a produção para atender a demanda, quer seja de indivíduos ou de instituições, e quer oferecer a Casa S para a ONU, a preço de custo, para ser usada como abrigo para refugiados. (O S vem de “strong, sustainable and steel”, ou “forte, sustentável e de aço.”) Enquanto isso, ele disse que iria avaliar como as 38 novas Casas S em Ba-Vi vão se sair durante seu primeiro teste, um curso de dois meses de meditação silenciosa ao qual ele planeja assistir. Cada casa terá um telhado de sapé e quatro camas, mas sem ar-condicionado. “Vou saber quais são os problemas depois de tanto tempo de reflexão”, disse ele com uma risada. “Mas acredito que seja bem confortável.” Em uma tarde recente em Ba-Vi, um grupo de budistas envolvidos no projeto do centro de meditação assistia aos trabalhadores da construção civil, com jaquetas azuis da empresa de Vo Trong Nghia, erguendo a estrutura de uma Casa S sob a luz intensa do sol. Uma deles, Nguyen Thao, monja budista do sul do Vietnã, que usava um robe longo marrom, disse que estava ansiosa para passar um tempo na casa, e que não se importava com a falta de luxo. “É boa o suficiente para nós porque temos um estilo de vida simples”, disse Thao com um sorriso brilhante.

Fonte: Gazeta do Povo