Confira o relato impressionante da moradora de Curitiba abusada por João de Deus

31/12/2018 às 10:46. Comente esta notícia!

Foto: Reprodução Tribuna do Paraná

A gestora em marketing Maria, de 53 anos, moradora de Curitiba, não duvida do poder de cura do médium João de Deus, preso no último domingo sob a acusação de ter estuprado e abusado sexualmente de mais de 500 mulheres na cidade de Abadiânia (GO). Afinal de contas, João curou o câncer no cérebro e a epilepsia do filho de Maria. Mas ela também sabe que o médium vinha abusando da fé das pessoas para violenta-las, pois ela foi uma das vítimas, obrigada a fazer sexo oral no médium, numa sala trancada. Além dela, outras seis mulheres vítimas de João já foram ouvidas pelo Ministério Público do Paraná, em Curitiba.

A vítima desta reportagem será chamada de Maria, pois ela não quer ter o nome verdadeiro divulgado. O estupro foi em 1996. Era a terceira vez que ela estava indo até Abadiânia, em Goiás, para tratar o câncer do seu filho. “Na primeira vez que fomos, em 1994, o Fernando estava bem parado dentro do ônibus, muito magro, tremia, não conseguia comer. Todos estavam assustados com ele dentro do ônibus. Depois de seis idas no João, contrariando qualquer diagnóstico médico, meu filho se curou. E também vi outras pessoas com a morte sentenciada se curarem. Não posso deixar de falar das coisas boas dele”, lamentou Maria.

Na terceira vez que a gestora de marketing foi a Abadiânia com o filho é que aconteceu o estupro. Ela conta que estava na fila para ser atendida, quando percebeu que o médium olhava para ela o tempo todo. Até que dois assistentes vieram chama-la na fila, pedindo que entrasse numa sala à parte. “Eu tentei levar meu filho junto, mas disseram que eu era uma das escolhidas do João e que ia receber uma graça. Então deixei meu filho na fila com minha cunhada e fui, acreditando que eu ia ajudar a curar meu filho”, diz Maria.

Quando João chegou, diz Maria, ele trancou a porta e sentou no sofá. “Ele me mandou ajoelhar na frente dele. Com uma mão ele segurou minha cabeça pra baixo e com a outra foi abrindo o zíper da calça. Ele dizia que eu tinha recebido uma graça, que aquilo era uma troca de energia. Ele ia tirar de mim e do meu filho toda a energia ruim e nós nunca mais ficaríamos doentes. Foi quando ele segurou meus cabelos e empurrou minha cabeça no pênis dele. Eu dizia que não queria aquilo, mas ele batia na minha cabeça e segurava meu cabelo, mandando eu chupar o pênis dele”, disse a mulher, que se negava a fazer aquilo.

Com raiva, João esfregava a cara dela no pênis dele e ainda a xingava de burra, dizendo que ela não prestava para nada porque não sabia fazer aquilo, mas que a entidade precisava que fizesse. “Eu estava de olhos fechados. Num momento que abri os olhos, vi que a roupa dele já estava toda lambuzada, que ele já devia ter feito aquilo com muitas outras pessoas. Ele me mandava chupar, mas não conseguia ter ereção porque já devia ter feito muito naquele dia. Eu até tentava, pensava que estaria ajudando meu filho. Mas me dava náusea, ânsia de vômito. Eu comecei a chorar e ele disse que eu estava espantando as entidades boas. Queria que eu tirasse a roupa, mas eu não tirei”, disse a mulher, que levantou-se e tentou ir embora.

Maria já estava na porta quando João a agarrou pelos cabelos, a fez ajoelhar de volta e esfregou a cara dela novamente em seu pênis. “Ele mandava eu chupar e falava que era pra eu não contar nada pra ninguém, pois se não as energias ruins que ele tirou de mim iam voltar. E que se eu contasse para alguém, iam me chamar de louca e ele ia dizer que eu estava possuída. No final, ele ainda me deu o telefone da fazenda dele. Disse que quando eu quisesse era pra ligar e ir lá, levar minha filha junto”, disse a mulher.

O que dizer aos outros?
Quando saiu, seus familiares e amigos queriam saber o que tinha acontecido lá dentro. Ela não sabia o que fazer e acabou dizendo que tinha recebido uma graça de João, mas que não podia revelar o que tinha acontecido lá dentro para que ela não perdesse a graça recebida. “Mas as pessoas diziam que eu estava pálida, branca como papel. Todos queriam ser um dos escolhidos do João e pensavam que algo realmente muito bom tinha acontecido lá dentro”, lamentou Maria, que se calou por 22 anos, com medo. Depois disto, o filho dela foi outras três vezes a Abadiânia, com parentes. Maria dava a desculpa que queria economizar e não foi mais.

Desde então, Maria passou a desenvolver medos e fobias de tudo, faz terapia há anos. Mudou até a forma de se vestir. “Quando saímos lá do centro espírita, já na pousada eu ficava me perguntado se eu estava parecendo puta, pra ele fazer isso comigo. E vivia perguntando isso pro meu marido. Hoje ele entende o porquê da pergunta frequente”, contou Maria, em prantos, que na época do abuso morava em Porto Alegre (RS).

Maria ficou sabendo das outras vítimas há duas semanas, pelo filho. O rapaz assistia TV quando viu um grupo de vítimas contando dos abusos. Logo em seguida, ele telefonou para a mãe falando que estava assistindo, sem saber que a própria mãe também tinha sido estuprada pelo médium. Na adolescência, João curou o jovem de um câncer no cérebro, o que fez o rapaz virar um grande fã do médium e ter muitos objetos em casa, em homenagem a João de Deus.

“Ele dizia que não estava acreditando no que estava vendo na TV. Foi quando eu disse ‘mas acredite filho’. Não precisou eu dizer mais nada e ele entendeu que eu também era uma das vítimas. Começou a juntar os acontecimentos, lembrar daquele dia que os assistentes me tiraram da fila para me colocar numa salinha à parte, quando eu saí pálida da sala. Pra ele, os fatos começaram a se encaixar”, lamentou ela, que há cinco anos descobriu que estava com um câncer muito raro.

Até o dia do estupro, Maria também era uma fã de João de Deus e aconselhava todos a irem lá se curar. Tanto que, quando descobriu o seu câncer, todos a aconselhavam a ir a Abadiânia (GO), cidade onde João de Deus atendia os fiéis para curá-los, até ser preso no último domingo. Maria não sabia o que dizer às pessoas. “Até meu filho, que mora em Porto Alegre, dizia que estava vindo a Curitiba e que ia lá comigo. Eu falava que não, que estava me tratando, que eu não queria ir lá e que ninguém ia entender porquê. Outra pessoa da minha família dizia que eu estava me fazendo de vítima, que não queria me curar. Mas eu não tinha como contar. Ninguém ia acreditar em mim. Eu vejo ele na TV dizendo que é inocente e me dá nojo. Pensa que meu caso aconteceu na década de 90. Imagina quantas mulheres ele violentou. Eu soube de casos da década de 80 ainda. Eu só quero que esse homem vá preso e sofra na cadeia tudo o que fez essas mulheres sofrerem”, disse ela.

O crime
Formalmente, 15 mulheres já prestaram depoimento à Polícia Civil e ao Ministério Público de Goiás. Isto sem contar os depoimentos que estão sendo colhidos pelo Ministério Público em outros estados brasileiros. João de Deus selecionava algumas mulheres para atendê-las numa sala reservada, momento em que ocorriam os crimes. Há relatos de diversos tipos de abusos, desde passadas de mão em partes íntimas, até sexo oral e conjunção carnal.

As denúncias contra João se tornaram públicas há pouco mais de duas semanas. No último fim de semana a Justiça emitiu um mandado de prisão contra o médium, suspeitando que ele estivesse pretendendo deixar o Brasil. João se entregou no domingo à polícia. Ontem, a polícia apreendeu um saco com R$ 405 mil em dinheiro vivo na casa dele, além de cinco armas de fogo. Sem contar os R$ 35 milhões detectados na conta do médium.

Vítimas no Paraná
Maria é uma das sete mulheres, moradoras em Curitiba, que já procuraram o Núcleo de Apoio à Vítima de Estupro (Naves), do Ministério Público do Paraná (MPPR), até ontem. Os depoimentos são gravados em áudio e remetidos ao Ministério Público de Goiás, para serem anexados ao restante das investigações contra João de Deus.

O MPPR aconselha às vítimas do médium, moradoras no Paraná, que procurem o Naves pelo telefone 3250-4022 ou que mandem um e-mail para naves.mp@mppr.mp.br. Elas receberão orientações e terão uma data agendada para serem ouvidas, assim como foi feito com Maria.

Veja o relato da vítima no site da Tribuna