Camila Queiroz faz sua primeira personagem carioca: ‘Estudei o sotaque, mas tenho medo’

05/06/2017 às 11:24.

‘Ela é carioca, ela é carioca, basta o jeitinho dela andar…” Os versos da canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes caem como uma luva para Camila Queiroz. Tudo bem que ela é de Ribeirão Preto e traz na maneira de falar o “r” carregado do interior de São Paulo. Mas, na pele de Luíza, jovem nascida e criada em Copacabana na novela “Pega pega”, que estreia terça-feira, a atriz tem trabalhado duro para fazer jus ao título da música dos poetas.

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A começar pelo sotaque cheio de chiado característico do carioca da gema.

— Meu maior desafio era pensar em como transformar o jeito de falar. Em janeiro, comecei a preparação com duas horas por dia nas aulas de prosódia, que se seguiram até março quando começamos a gravar. Eu me julgava muito no começo, ainda me pego julgando meu sotaque carioca. Como não estou acostumada a me escutar, acho que estou fazendo errado, exagerando. Mas paro e respiro. Sei que vou conseguir — diz a atriz de 23 anos.

Um pouco de insegurança é normal, na opinião da paulista, que não precisou se preocupar com pronúncias ao viver Angel, de “Verdades secretas”, e Mafalda, de “Êta mundo bom!”. Mas quem já a viu como Luíza garante que o esmero de Camila está dando certo. A bela confessa, porém, que está com frio na barriga.

— Estudei muito o sotaque, mas ainda tenho medo. Acho bom, é um sinal de que não estou confiante em tudo que faço — acredita ela, que, gaiata, brinca: — Na verdade, para me tornar 100% carioca, faltam o bronze e o samba no pé!

A carioquice no modo de falar, curiosamente, ficou só com a personagem.

— Impressionante, não consegui pegar para a vida. Mas é até legal, porque uso isso como uma chavinha. É como se, na hora em que estou no set me preparando para entrar, Luíza chegasse de mansinho — analisa Camila.

Mesmo morando no Rio há dois anos, a atriz sente que ainda não se inseriu totalmente na rotina da cidade.

— Para mim, que cresci em São Paulo, os cariocas têm uma pegada muito diferente. O cotidiano é mais leve, as pessoas trabalham com mais calma, sem aquela pressão de São Paulo. Existe também uma relação legal com a praia, como uma espécie de ritual. Isso me chamou atenção — conta a moça, que aponta o (pouco) que introjetou dessa rotina: — Houve mudanças, como o esporte e um cuidado maior com o corpo no dia a dia. Mas sem o peso que o carioca dá. Adoro andar de bicicleta, ver meu namorado (o ator Klebber Toledo) surfar… E ficar perto do mar, apesar de preferir observá-lo a estar dentro dele (risos).

Camila ainda olha para os cartões-postais da cidade com jeito de turista. Ficou encantada com o Forte de Copacabana, onde foram feitas as fotos para esta reportagem, e disse querer voltar para “explorar melhor o espaço”. Conta que quis conhecer o Pão de Açúcar, mas um capricho do clima a impediu:

— Tentei ir com minha mãe, mas, como estava ventando muito, eles fecharam o bondinho. O que achei bom, porque tenho medo e entendi isso como sinal de Deus (risos). Uma vez fiquei presa num teleférico num parque em Santa Catarina. Na hora de descer, ventava muito, o bondinho parou e a gente ficou lá dentro. Balançou demais.

Camila conhece o Cristo Redentor dos tempos de modelo, e quis voltar, já famosa, para levar a família.

— Não consegui, porque começaram a correr atrás de mim. Vendo que ia estragar o passeio da família inteira, desisti — conta a atriz, que ainda quer ir ao Parque Lage, voltar ao Jardim Botânico, além de subir a Pedra da Gávea: — Na verdade, me falta um pouco de coragem. Mas gosto de ir à Pedra Bonita, só falta pular de parapente.

Se depender de determinação, Camila não vai passar por essa vida sem se jogar no ar. Superar obstáculos é com ela mesma. Basta ver como lidou com a invasão de privacidade no início de seu namoro com Klebber Toledo.

— No começo foi mais difícil, porque existia uma curiosidade das pessoas. Todos queriam saber há quanto tempo estávamos juntos. Tudo porque eu tinha terminado um namoro e, para preservar a mim e o meu ex, me fechei. Não quis falar sobre isso e me ferrei. Tanto que me arrependo de, na época, não ter assumido logo o término. Quando você não dá a informação, as pessoas se acham no direito de falar o que quiserem. Klebber e eu, então, nos demos as mãos e dissemos: “Vai passar, é só um momento” — conta Camila, que está com o ator há quase um ano.

O assédio não intimida o casal:

— A gente não deixa de viver a nossa vida, postar foto, falar de amor… Estamos conseguindo driblar um pouco essa curiosidade. Não tem como fugir disso, tem como diminuir. Agora perguntam se não vamos fazer publicidade juntos. Nunca foi a nossa prioridade, não queremos ser um casal comercial, crítica que já escutamos. Então, é viver o mínimo de privacidade que sobra em paz.

Se o amor e a profissão estão “ok” na vida de Camila, na ficção, sua Luíza vai passar por percalços. Da noite para o dia, a herdeira do Carioca Palace descobre que o hotel de luxo foi vendido, que o dinheiro foi roubado e que seu amor, Eric (Mateus Solano), o comprador, é suspeito de ter dado o golpe em seu avô. Falida, ela terá que se reinventar. A determinação da personagem lembra a de sua intérprete:

— Ela vai do luxo ao lixo. Não tem onde morar, passa a viver num quartinho do hotel. Procura emprego na Tijuca, bairro onde seu avô passa a viver de favor. Como nunca foi deslumbrada, vai à luta. O avô tem 70 anos, e ela, 25. Se não for Luíza, quem vai fazer? Isso foi o que aconteceu comigo. Modelar era a única chance de eu melhorar a vida da minha família. Se eu não saísse de casa com 14 anos para correr atrás, quem faria? A gente não pode jogar a responsabilidade na mão de outra pessoa.

Filha do marceneiro Sérgio, e da dona de casa Eliane, Camila conta que “a vida no interior nunca foi fácil”:

— Tivemos momentos críticos em relação à comida em casa. Não dava para gastar com outras coisas. Só fui comprar Mc Donald’s, por exemplo, aos 16 anos, quando já tinha meu dinheiro. Conheci o mar aos 14, em Ipanema, quando vim fazer um trabalho de modelo no Rio. Somos três filhas que dividiam o mesmo quarto. A casa foi crescendo conforme meu pai foi reformando, aos poucos. Eu queria mudar aquela realidade e as dificuldades me motivavam.

Os anos de modelo e o pouco tempo de uma carreira de atriz bem-sucedida estão ajudando Camila a realizar o sonho de transformar a trajetória da família. A dedicação orgulhava seu pai, morto há dois meses. Ela iniciava as gravações de “Pega pega” e teve que juntar os cacos para prosseguir.

— Voltei a gravar quatro dias depois que meu pai morreu. Não tem como fugir, a vida continua. Até porque tinha que dar apoio a minha família. Precisei ser uma fortaleza. Claro, contei com o apoio do Klebber, mas é difícil pra caramba. Duas semanas depois que ele morreu, fiz uma cena em que Caruso (o avô na ficção) estava numa maca. Foi a primeira vez que dei uma estremecida. Falei: “Gente, não estou conseguindo”. E fui lá fora chorar. Tenho que ser forte, entender que aquela vida não é minha, que a minha dor fica para outra hora. Trabalhar é bom, ocupa a mente.