Beijo pode ter causado morte de recém-nascida

13/12/2018 às 16:16.

A menina, de apenas 14 dias, não resistiu após contrair herpes simplex. Os médicos acreditam que o vírus foi transmitido por meio de um beijo

Kiara morreu antes de completar 15 dias de vida (Foto: PA Real Life)

É difícil imagimar que um simples beijo possa ter causado a morte de uma recém-nascida, mas é o que acreditam os médicos. Kiara, filha de Kelly Ineson, 30, e Thomas Cummis, 26, morreu menos de quinze dias depois do nascimento, em julho deste ano. Segundo os pais, a pequena teria contraído a cepa do vírus da herpes: “os médicos nos disseram que Kiara provavelmente pegou de alguém que a beijou“, disse a mãe.

A alegria que terminou em sofrimento

A alegria pela chegada da pequena Kiara, infelizmente, durou pouco tempo para a família, de West Yorkshire, na Inglaterra. Ela foi a primeira filha do relacionamento de Kelly com o noivo, Thomas. A mãe, que tem outros três filhos — Brandon, 11, Jamielea, 10, e Harry, 8  — de um relacionamento anterior, disse que todos ficaram muito felizes com a notícia da gravidez. “Ele literalmente pulou de alegria”, disse ela, referindo-se ao noivo. “Jamielea estava histérica, e os meninos ficaram emocionados por ter outra irmã a caminho”, lembrou.

Finalmente, a hora do parto chegou, mas não foi como ela esperava: “uma enfermeira me pediu uma amostra de urina, mas ficou completamente verde, quase como molho de hortelã. Eu estava realmente em pânico, especialmente quando me disseram que era porque Kiara tinha feito cocô no útero. Eu sabia que isso poderia ser realmente perigoso”.

Após uma cesárea de emergência, Kiara lutou para respirar. “Lembro-me deles pegando Kiara e não ouvindo nada, sem choro. Me deitei lá sentindo-me impotente, enquanto os médicos corriam de um lado para o outro. Eu dei uma segunda olhada quando eles a levaram para fora, então não consegui vê-la novamente por horas”, relembrou.

Apesar do susto, Kiara foi estabilizada e os médicos garantiram que ela não engoliu fezes durante o trabalho de parto. A menina foi mantida na incubadora do hospital por 48 horas e logo pode ir para casa. “Fiquei muito feliz com o progresso de Kiara. As coisas pareciam absolutamente boas. Ela tinha lindas bochechas rosadas e estava ganhando peso de forma saudável”, disse Kelly.

Os pais e Kiara, com apenas 3 dias de vida (Foto: PA Real Life)

No entanto, dez dias depois, um exame de rotina revelou que o peso de Kiara tinha caído de repente para abaixo do peso de nascimento, e precisou ser levada para um hospital especializado. Ela estava com uma infecção, que também começou a afetar os rins, fazendo com que ela precisasse de diálise urgente para remover os resíduos. “Foi horrível”, disse Kelly. “Eu não pude deixar de pensar no pior cenário. Toda vez que tínhamos um pouco de esperança, algo mais acontecia”, completou.

“Eu me lembro de uma vez sair da enfermaria para tomar uma xícara de chá e um pouco de ar fresco, e os níveis de oxigênio de Kiara diminuíram enquanto eu estava fora. Eu voltei para ver todos esses médicos correndo para a cama dela e acabei de desmoronar. Eu acho que, no fundo, eu sabia que ela não iria sobreviver”, falou a mãe. Logo depois, os médicos descobriram que Kiara havia contraído uma cepa do vírus herpes simplex.

Tragicamente, aos 14 dias de idade, os pais de Kiara foram informados de que o vírus a levara a desenvolver sépsis mortal — quando o corpo se ataca em resposta a uma infecção. A bebê foi colocada em coma induzido, mas mesmo se milagrosamente sobrevisse, ela provavelmente teria sérias sequelas cerebrais. “Nós imploramos aos médicos que fizessem o que pudessem, mas não adiantou. Disseram-nos que estaríamos esperando que ela morresse. Eu não pude ouvir mais nada. Eu acabei de desabar, correndo pelo corredor gritando até desmaiar”, lembrou.

“Eu sabia que Thomas e eu tínhamos uma decisão horrenda a fazer. Foi incrivelmente difícil, mas no final, nós concordamos com os médicos para deixá-la ir com paz e dignidade, em vez de prolongar seu sofrimento. Toda a nossa família veio se despedir, depois, ficamos nós dois com ela enquanto, uma a uma, todas as máquinas que a mantinham viva foram desligadas. Ela faleceu às 18h32 do dia 13 de agosto – o pior momento da minha vida”, lamentou.

O triste momento em que a mãe se despede da filha (Foto: PA Real Life)

Um perigo chamado herpes simplex

A mãe prometeu fazer tudo o que puder para aumentar a conscientização sobre o vírus. Com o apoio da Herpes Viruses Association, ela está incentivando outros pais a perceberem os perigos de deixar as pessoas beijarem seus bebês recém-nascidos. “Dar a notícia aos meus outros filhos foi uma das partes mais difíceis disso. Tudo o que quero agora é que pais e médicos se instruam sobre o vírus e quão devastador ele pode ser”, disse ela.

Marian Nicholson, diretora da Herpes Viruses Association, explica que o herpes simplex é altamente contagioso. O vírus é mais conhecido como a causa do herpes labial ou das úlceras genitais em adultos, no entanto, pode ser fatal para um bebê que ainda não possui o sistema imunológico totalmente desenvolvido.

Regina Matielo, infectopediatra do Hospital Sepaco, afirma que existem três vias de transmissão: “a forma mais incomum é quando a mulher gestante passa o vírus através da placenta para o feto. Isso corresponde a aproximadamente 5% das infecções por herpes em bebês e pode causar má formações, como microcefalia, anencefalia e abortamento. Em cerca de 85% dos casos, o contágio ocorre quando o bebê está passando pelo canal de parto e a mãe possui o vírus. Por fim, 10% das situações ocorre em recém-nascido em contato com o ambiente externo”, explicou.

A especialista orienta que quanto menos pessoas beijarem o bebê melhor, não só por causa da herpes, mas uma série de outros vírus que podem ser transmitidos aos recém-nascidos. “Para transmitir o vírus da herpes simplex a pessoa geralmente está com alguma feridinha nos lábios e ou beija o bebê, ou coloca a mão na boca sem perceber e depois toca na criança. O maior risco é no primeiro mês, mas vale ressaltar que a imunidade só fica realmente fortalecida por volta dos dois ou três anos”, diz. Ou seja, pedir para que não beijem o recém-nascido não é frescura, mas uma questão de proteção.

Nicholson ainda faz um último alerta. “Muitas pessoas não sabem que carregam o vírus, já que uma a cada três manifestam os sintomas. Você pode ser uma das pessoas que tem feridas tão leves que não as notou, mas sua infecção leve pode ser transferido para um novo bebê”, finalizou.