Beija-Flor doa instrumentos para crianças que tocaram samba com baldes e latões em vídeo

09/02/2018 às 20:07.

Crianças improvisam bateria com baldes e latões Foto: Pedro Zuazo. Jornal Extra

 

A Beija-Flor de Nilópolis decidiu doar instrumentos profissionais para sete crianças de Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro, que improvisaram uma bateria de escola de samba usando baldes, garrafas e latões. O grupo chamou a atenção da diretoria da agremiação a partir de um vídeo caseiro, publicado no Facebook, no qual os jovens aparecem cantando e tocando o samba da Azul e Branco. O registro viralizou e chegou até Aniz Abrahão David, o Anísio, patrono da escola.

Na manhã desta sexta-feira, os pequenos ritmistas se encontraram com Neguinho da Beija-Flor e integrantes da bateria da escola. Pela primeira vez, pegaram nas mãos instrumentos de verdade, e mostraram que sabem tocar quem nem gente grande. O encontro foi proporcionado pelo programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da TV Globo.

— Quando vi o vídeo pela primeira vez, senti uma emoção inexplicável. O próprio Anísio chorou quando viu. Eu me vi ainda criança, nessa mesma situação. Todos nós começamos assim. O Betinho do Cavaco, meu cavaquinista há 20 anos, botava elástico numa peça para tocar. Esses garotos são os futuros sambistas e mestres de bateria desse país — disse Neguinho, após o programa.

Ao ver os meninos tirarem som dos instrumentos improvisados, Rodney Ferreira, de 52 anos, mestre de bateria da Beija-Flor, também foi tomado por um sentimento nostálgico.

— Passou um filme na minha cabeça. Aos 12 anos, no Méier, eu improvisava instrumento com uma lata de tinta e papel de cimento para tocar na rua. Quando o Wendel me reconheceu e me chamou pelo nome, eu desabei — conta Rodney, referindo-se ao líder dos ritmistas mirins.

Talento nato

Wendel Silva, de 12 anos, tentava manter a compostura de um mestre de bateria, diante de tantas novidades. Embora torça pela Beija-Flor desde os 9 anos, nunca havia participado de um ensaio da escola. Seu maior sonho era conhecer Neguinho. De um dia para o outro, além de virar uma celebridade na web, Wendel viu a agremiação vir até ele.

— Foi um espetáculo. Conhecer o Neguinho foi muito emocionante — diz o menino, de poucas palavras.

 

Morrinho é o berço do Samba Campista e não tem jeito!!!Desde pequeno a molecada já mostra o que corre nas veias de vdd, detalhe q eles estão interpretando o samba da futura Campeã do Carnaval do Rj 2018 Beija flor de Nilópolis que tem uma letra um tanto complicada pra idade deles…#Morrinho#camposdosgoytacazes#beijaflor#campeã2018#escreveai

Posted by Alan Alain Koch on Wednesday, February 7, 2018

 

Filho único de um pintor e uma dona de casa, Wendel frequenta rodas de samba desde os primeiros anos de vida. Seu pai, Wallace Silva, de 38, tem um Boi Pintadinho — tradicional manifestação cultural de Campos. Ele também participa, desde os 10 anos, dos desfiles do Boi Arrastão, que literalmente arrasta foliões na cidade.

— Ele está acostumado a participar dos ensaios desde pequeno. Mas essa história de tocar instrumentos e montar uma bateria foi dele mesmo. Ele aprendeu sozinho, olhando. Além de percussão, também toca cavaquinho e compõe músicas — diz o pai, sem esconder a satisfação pela conquista do filho: — Fiquei bastante orgulhoso, porque ele sempre quis ir na Beija-Flor e nunca conseguiu. O sonho dele era conhecer Neguinho. De repente, conseguiu tudo o que queria.

A bateria de Wendel, que ainda não tem um nome oficial, conta com sete componentes. Kevin Martins, de 11, toca o repenique; João Gabriel e Rodolfo José, ambos de 8 anos, tocam chocalho; Lucas dos Santos, de 12, Caio Souza, de 11, e João Henrique, de 8, tocam o bumbo. Todos moram na mesma rua que Wendel, na comunidade do Morrinho, e foram convocados por ele para a brincadeira de forma despretensiosa.

— A ideia foi minha. Comecei a tocar com latas aos 9 anos. Fui olhando e aprendendo. Aí comecei a ensinar para os amigos. Mas nós começamos a ensaiar para valer em janeiro — diz ele.

Os meninos já foram comunicados pela escola sobre a doação, mas ainda não foi definida uma data para receberem os instrumentos. De acordo com Rodney, a direção vai entrar em contato com os meninos para saber qual é a necessidade deles e enviar o material. Wendel e seu grupo, no entanto, já aguardam ansiosos.

Desfile na Sapucaí

O sucesso súbito dos meninos suscitou na Beija-Flor o desejo de tê-los na Sapucaí. No entanto, devido à proximidade dos desfiles, talvez não haja tempo hábil para conseguir acertar a documentação com o Juizado de Menores. Neguinho da Beija-Flor não perde as esperanças.

— Vamos tentar. Se der tempo de agilizar a documentação necessária, eles vão vir daquele jeito em que apareceram no vídeo: de chinelo, sem camisa e tocando na lata. Vai ser um estouro.

 

Fonte: Jornal Extra