Artista de 8 anos decide vender telas para pagar transplante de córnea do melhor amigo

08/11/2017 às 09:41.

Amizade de Sofia Cobucci e Vinícius Ribas, de 14 anos, foi à primeira vista. Garoto nasceu com glaucoma, chegou a ser desenganado e já passou por 31 cirurgias.’Passo gigantesco para minha vida’, diz.

Ingenuidade e pureza caminham lado a lado com uma maturidade inesperada para uma menina de 8 anos. Sofia Cobucci é uma artista nata, mora em Campinas (SP) e brilha diante dos olhos quase cegos do melhor amigo Vinícius Ribas, de 14 anos. Ela decidiu vender as telas que pinta para pagar o transplante de córnea dele, a cirurgia mais esperançosa entre outras 31 que ele já fez, estimada em R$ 18 mil e prevista até final de janeiro de 2018.

“Tenho certeza absoluta que essa vai dar certo. E se não der certo, vou tentar de novo, e de novo, e quantas meu olho aguentar, porque essa é uma chance que não pode ser jogada fora. Sou privilegiado.[…] Vai ser um passo gigantesco para a minha vida, apesar de ser uma mudança impressionante”, conta o jovem.

Vinícius nasceu com glaucoma, não enxerga do olho direito e tem só 10% da visão no esquerdo, que se resume à percepção baixa da luz. Realidade nunca encarada como empecilho para a amizade entre os dois, que foi à primeira vista. Pelo contrário. É motivação para as criações de Sofia. [Veja ela pintando no vídeo, acima]

“Eu acho que nasci com esse dom. Gosto bastante! Eu nunca sei direito como eu vou fazer, porque copiar da mente é muito difícil. Jogo tinta de qualquer cor pra tudo quanto é lado e fica lindo! […] Eu quero ver ele feliz”, diz a menina.

A artista plástica Sofia Cobucci usa técnicas diversas nas suas telas, em Campinas (Foto: Patrícia Teixeira/G1)

A artista plástica Sofia Cobucci usa técnicas diversas nas suas telas, em Campinas (Foto: Patrícia Teixeira/G1)

Inspirada pela causa há três anos – quando se conheceram – e sempre acompanhada por música, a garota se transforma diante de uma tela em branco. Ganha espaço um olhar complexo e certeiro sobre espátulas, palitos e pincéis que dão vida às cores e aos sentimentos dela. Entre 20 minutos e uma hora, Sofia termina um trabalho. “Demora”, acredita ela.

“Eu começo a fazer o fundo e vai ficando legal e eu continuo fazendo a mesma coisa até ficar lindo. Ele vai poder ver isso, vai ver como eu sou bonita e vai ver como eu pinto bem! Né, Vini?”, diz Sofia ao provocar o amigo-irmão, que concorda sem hesitar.

Segundo a família, os médicos disseram que há chance de ele recuperar 90% da visão no olho esquerdo, que passará pelo transplante de córnea.

“Já fiz uma lista das quatro coisas que quero ver primeiro na minha vida: a primeira é o espelho; a segunda são os quadros da Sofia; a terceira é minha irmãzinha [de 3 anos]; e a quarta é ver no Google Earth o estilo de cada país”, conta Vinícius.

A artista plástica Sofia Cobucci, de 8 anos, começou a pintar as primeiras telas aos 4 anos, em Campinas (Foto: Patrícia Teixeira/G1)

A artista plástica Sofia Cobucci, de 8 anos, começou a pintar as primeiras telas aos 4 anos, em Campinas (Foto: Patrícia Teixeira/G1)

Desenganado por médicos

O glaucoma de Vinícius foi percebido logo após o nascimento, o aspecto dos olhos não era o esperado pelos médicos. O padrasto do garoto, o produtor de vídeo Felipe Jardim, conta que perceber cores foi o máximo que ele chegou a ver.

“Quando ele nasceu, tinha baixíssima visão, como se fosse tudo desfocado, mas conseguia visualizar cores e a presença da luz”, conta.

A doença provoca no menino uma alteração inesperada, e não explicada, da pressão nos olhos. Ao longo de 14 anos, ele passou por médicos públicos e privados, que chegaram a desenganar a família sobre uma futura recuperação da visão.

Camila, a filha Sofia e o afilhado Vinícius, em Campinas. Família busca recursos para transplante de córnea do garoto, de 14 anos. (Foto: Patrícia Teixeira/G1)

Camila, a filha Sofia e o afilhado Vinícius, em Campinas. Família busca recursos para transplante de córnea do garoto, de 14 anos. (Foto: Patrícia Teixeira/G1)

Quando conheceu Sofia e a mãe dela, a artista plástica e gerente comercial Camila Cobucci – atualmente madrinha de Vinícius -, surgiu o contato com outros profissionais que reacenderam a esperança de ele voltar a enxergar.

“Quando a gente chegou na mão desses médicos, viram por dentro do olho do Vinícius e a estrutura do olho dele por dentro era perfeita para receber um transplante, por conta dos nervos óticos que sempre foram mantidos”, lembra o padrasto.

A medicação é cara – cada colírio chega a custar cerca de R$ 300 – mas a solidariedade com que a família de Sofia acolheu o caso dele já rendeu frutos.

Sofia e Vinícius se consideram irmãos. Artista, ela pinta telas para arrecadar dinheiro para o transplante de córnea dele, em Campinas (Foto: Patrícia Teixeira/G1)

Sofia e Vinícius se consideram irmãos. Artista, ela pinta telas para arrecadar dinheiro para o transplante de córnea dele, em Campinas (Foto: Patrícia Teixeira/G1)