Após 59 anos juntos, casal diz que ‘segredo’ é a compreensão: ‘todo mundo tem seu defeito’

26/01/2018 às 09:26.

“A gente nunca brigou, sabe? A gente tem uma vida ótima”. A declaração é de Emília Dias Moral Castilho, de 75 anos, e se refere ao casamento que já dura 59 com Antenor Moral Castilho, de 80 anos. O G1 conta a história do casal no dia em que a instituição do casamento civil no Brasil completa 128 anos. Eles são exemplo de que quando dois querem, uma união pode durar a vida toda. O segredo? Ter compreensão e entender os defeitos do companheiro.

Emília morava em Piracicaba e se mudou para um sítio quando a mãe casou novamente. Lá, ela conheceu Antenor quando tinha apenas 12 anos e começaram a namorar. Apesar de jovens, o namoro era “diferente” naquela época, como ela própria descreve: “Pegava só na mão e a mãe ficava sempre junto, beijinho não existia.”

Emília e Antenor são casados há 59 anos e moram em um sítio em Saltinho (Foto: Larissa de Sousa/Arquivo pessoal)

Emília e Antenor são casados há 59 anos e moram em um sítio em Saltinho (Foto: Larissa de Sousa/Arquivo pessoal)

Para encontrar com o namorado, eles tinham até um código. “Naquele tempo tinha muita reza na casa das pessoas. O dia que ele colocava uma pedrinha no muro, ele tinha ido na reza”, lembra. A tradição perdurou e, anos depois de casados, as pedrinhas ajudaram o relacionamento dos dois novamente. Já com os filhos crescidos, Antenor trabalhava durante a noite e jogava uma pedrinha na janela sempre que chegava para avisar a esposa.

Casal de Piracicaba, Emília e Antenor, quando eram jovens (Foto: Arquivo pessoal)

Casal de Piracicaba, Emília e Antenor, quando eram jovens (Foto: Arquivo pessoal)

O casamento

Quando Emília tinha 16 anos e Antenor 21, os dois resolveram morar juntos. “Eu resolvi ir embora com ele e fui”, lembra. No mesmo dia, 4 de dezembro de 1958, eles se casaram no civil e só depois disso se beijaram pela primeira vez. O casório não teve festa. “Naquela época quando a gente casava o presente da gente era ganhar bichinho. Eu ganhei galinha com pintinho, porquinho, uma vaca dando leite.”

“Seu” Tito, como é conhecido Antenor, contou ao G1 que a vida simples no campo não é fácil e ainda fez uma crítica. “Antes a gente não se preocupava com o luxo, hoje se gasta muito com isso.”

Casal de Piracicaba, Emília e Antenor, estão juntos há 59 anos (Foto: Larissa de Sousa/Arquivo pessoal)

Casal de Piracicaba, Emília e Antenor, estão juntos há 59 anos (Foto: Larissa de Sousa/Arquivo pessoal)

Perguntada se já pensaram em se separar durante os 59 anos que estão juntos, dona Emília foi categórica: “Não, não, não. É pra vida toda, graças a Deus.”

“O segredo é ter paciência, porque todo mundo tem seu defeito. Ele tem que compreender o meu e eu o dele”, declarou.

Sobre o “segredo” de um casamento duradouro e feliz, Antenor deu as dicas: “Primeiro tem que escolher a pessoa. O que mais importa não é a beleza, é o caráter”, disse. Além de saber escolher, ele contou que também é necessário aceitar. “Errar é humano. Tem que procurar resolver os problemas ali, sem brigar.”

Para ele, a causa da quantidade crescente de separações tem motivo: “O homem acha que é livre e pode conquistar qualquer mulher”, disse. “Eu sempre tive respeito com as moças, com as mulheres. Sim é sim e não é não”, completou.

Depois de tanta paciência, compreensão e pedrinhas jogadas na janela ou deixadas em cima do muro, a família cresceu. Hoje o casal tem 4 filhos e 3 filhas, 6 netos e 6 netas e ainda 3 bisnetos. É tanta gente que fica até difícil juntar. “Não dá pra reunir de uma vez”, disse Emília. Atualmente, os dois moram em um sítio em Saltinho (SP) e continuam levando a vida simples de sempre.

Casal de Piracicaba, Emília e Antenor, estão juntos há 59 anos (Foto: Larissa de Sousa/Arquivo pessoal)

Casal de Piracicaba, Emília e Antenor, estão juntos há 59 anos (Foto: Larissa de Sousa/Arquivo pessoal)

Casamentos e divórcios na região

Dados disponíveis do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com o número de casamentos nos últimos oito anos mostram que, nas três maiores cidades da região, houve um crescimento tímido até 2016. Já o número de divórcios aumentou com o passar dos anos, mas variou bastante, tendo queda de um ano a outro nas três cidades. (veja os dados nas tabelas abaixo)

Casamentos nas três maiores cidades da região

Ano Piracicaba Limeira Santa Bárbara d’Oeste
2009 2.184 1.809 1.158
2010 2.344 1.862 1.269
2011 2.444 1.886 1.342
2012 2.666 1.928 1.337
2013 2.675 2.003 1.308
2014 2.775 2.243 1.409
2015 2.906 2.428 1.471
2016 2.833 2.448 1.340

Para o sociólogo Luiz Fernando Amstalden, dois fatores são os principais para o aumento do número de divórcios nos últimos anos. O primeiro deles foi uma maior participação feminina no mercado de trabalho.

“Isso muda a dinâmica familiar e muitas vezes cria entraves para o casamento. Nós ainda somos uma sociedade criada em modelos machistas.” No casamento, a mulher muitas vezes tem que fazer tudo, e para o sociólogo, muitos casais não estão preparados para dividir igualmente as tarefas.

A outra é uma mudança social muito intensa que tem acontecido nos últimos 30 anos e que, segundo o sociólogo, introduziu na sociedade um conceito de “descartabilidade”.

Divórcios nas três maiores cidades da região

Ano Piracicaba Limeira Santa Bárbara d’Oeste
2009 558 265 112
2010 832 359 160
2011 1.307 573 431
2012 1.086 624 305
2013 1.008 755 392
2014 1.218 955 414
2015 1.159 1.033 360
2016 1.189 1.004 278

“Vivemos em uma sociedade em que nós nos acostumamos a consumir e descartar tudo, [então] nós acabamos estabelecendo elos, sejam de amizade ou afetivos, também descartáveis.”

Para Amstalden, a população ainda vive essa transformação social e a tendência é de que os divórcios continuem altos até que essa mudança se consolide.

“A tendência, e eu acho que isso vai acontecer, não sei precisar quando, mas vai acontecer, é que novas formas de relacionamento, de estruturação da família venham a se consolidar, mas nesse momento eu acho que a tendência é [o número] de divórcios se manter alto por conta dessas transformações.”

*Sob supervisão de Samantha Silva, do G1 Piracicaba