A incrível história do repórter de guerra e surfista sucesso no Instagram que nunca existiu

04/09/2017 às 14:33.

Edu Martins, paulistano, 32 anos. Depois de superar uma leucemia, ele decidiu se dedicar a duas paixões: surfar e registrar guerras em fotografias, para que todo mundo pudesse ver os horrores pelos quais passam os moradores de zonas em conflito por causa do interesse de governantes. Sua história poderia muito bem ter sido contada antes aqui no Hypeness, mas só está sendo publicada agora que foi descoberto que Edu… não existe.

Pois é. Mais de 120 mil seguidores no Instagram, fotografias publicadas em veículos grandes do mundo todo (Alguns deles apagaram os registros de Edu de seus sites, mas é possível acessa-los com uma rápida busca no Google por ‘Eduardo Martins fotógrafo’ – a ferramenta de visualização em cache permite observar o conteúdo deletado), entrevistas para outros sites respeitáveis, e na verdade a história não passava de invenção.

No Instagram, “Edu Martins” divulgava seu trabalho no Oriente Médio

Quem revelou a descoberta ao público foi o jornalista Fernando Costa Netto, colunista do site Waves que, dois meses atrás, caiu na incrível história de vida do personagem e publicou uma entrevista realizada por e-mail – “Eduardo” caprichou nos detalhes, da história familiar à luta contra o câncer e a relação com o surf.

De acordo com Fernando, dois jornalistas, um brasileiro e um estrangeiro, entraram em contato com ele para falar de Edu. O fotógrafo freelancer que fizera fotos incríveis no Oriente Médio não passava de um farsante. Passou mais de um ano vendendo fotografias feitas por outras pessoas, provavelmente usou a imagem de um surfista de qualquer lugar do mundo para se passar por ele e até enganou uma carioca que passou a se relacionar com ele à distância.

Também no Instagram, divulgando a publicação de seu trabalho em um veículo francês

O perfil no Instagram foi apagado. O número de telefone não tem mais conta no Whatsapp. A polícia está atrás dele: falsidade ideológica, crime na internet, danos morais e roubo de imagens são algumas das acusações que devem cair sobre a pessoa por trás de “Eduardo Martins”. E o que isso nos diz sobre o jornalismo cibernético?

A internet possibilita que empresas contratem os serviços de pessoas sem nunca tê-las visto, o que é ótimo, mas também pode causar problemas. Veículos respeitáveis produzem matérias sobre pessoas que jamais existiram, inclusive com entrevistas feitas sem ver a cara ou ouvir a voz do interlocutor. O que impediu que o Hypeness tivesse publicado a bonita história de Edu? Apenas sorte, ou será que um de nossos repórteres teria a perspicácia de, durante a apuração, notar que havia algo de estranho no conto de fadas do século XXI que aquele pessoa estava contando?

Questões difíceis de se responder, mas que levantam reflexões importantes para produtores de conteúdo digital e leitores. Que a internet está cheia de histórias e perfis falsos não é novidade alguma, mas mesmo profissionais com certa experiência podem ser enganados se não prestarem bastante atenção.

Nota: Entre a redação e a publicação desse texto, a BBC Brasil, um dos veículos que divulgou fotos e entrevista com “Eduardo Martins”, publicou uma matéria em que detalha a saga do falso fotógrafo da ONU e relata o processo em que jornalistas passaram a duvidar da história e investigaram as verdadeiras autorias das imagens. Foi a jornalista Natasha Ribeiro quem primeiro desconfiou do discurso de “Eduardo” e deu início aos esforços para desmascará-lo. Para ler a matéria da BBC Brasil, clique aqui.

Pelo Whatsapp, explicou a jornalista que o entrevistara que ia sumir da internet por um tempo

Busca no Google indica imagens creditadas a “Eduardo”

Via: Hypeness